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domingo, 22 de abril de 2018

ANGUERA, ANHANGUERA















                                                              Por onde andas, tu? terrível Anhangue? Puêra, sem rastros, perdido nos longínquos alvorecer de nossa raca!Não é que um tempo outro tu retornas em forma de gente para ensinar o populacho se se comportar como gente? Cadê Maria Louca, Agnaldo e Aleci para onde tu os mandaste vagar? Tu o sabes, amigo. Conta-me sua saga;

domingo, 1 de abril de 2018














                      Naiana, na maioria das línguas tupis e guaranis significa Flor do Mel, mas a história da nossa jovem Naiana não tem flores nem é tão melíflua quanto o nome diz. É que jovenzinha já se sentia nela alguma deficiência que a fazia diferentes dos demais jovens de sua idade. Teve dificuldade para falar e entender as coisas, sendo sempre a última dos últimos alunos da escola que frequentava. Esta deficiência, entretanto, era compensada por sua esfuziante beleza. Não é que a garota começou a ter um comportamento estranho? Pois foi sua avó, Camila Alvarenga, que desconfiou de tudo e pôs a neta em confissão. Ela lhe disse que sua mãe a deu ao ex-prefeito para fazer sexo pelo valor de trezentos reais. Indignada procurou o promotor, que estava viajando, sendo aconselhada  a procurar o juiz. 
                No forum, a velha senhora procurou pelo juiz, tendo sido informada que o magistrado, Dr. Sergismundus Fredenandus, um homem sisudo e tido como implacável no combate ao crime, estava ocupado, que não poderia atendê-la no momento. Mas este povo da roça é turrão e insistiu, fazendo muita zoada, dizendo que só sairia dali depois de ser atendida pelo doutor que para isto ela pagava direitim seus impostos. Tanto insistiu e tanto gritou que  o magistrado resolveu deixar seu gabinete para ver de que se tratava. A velha, ao vê-lo, correu até ele pedindo socorro para sua neta. O juiz recuou um pouco com asco, mas logo abriu um tímido sorriso que a anciã interpretou como um  socorro. Apontou para sua neta. Doutô ela é doente e abusaram dela. O meritíssimo parou atolesmado, olhando para Naiana. Chamou-a, venha cá minha filha. A menina levantou-se timidamente e se dirigiu ao juiz.

sexta-feira, 2 de março de 2018














                                  

                      Antes do tudo que existia o nada era o tudo. Reinava, solitário, nesta imensidão nebulosa e disforme, um velho senhor barbudo e rancoroso. Ele já estava de saco cheio de viver só naquela imensa escuridão. Então, como os loucos, falou consigo mesmo, porque inda se não inventara as outras duas pessoas, pelo menos, não se fala disto no gênesis, nem em todo o velho livro. Já estou de saco cheio. Aqui sozinho, sem ninguém pra mandar, nem mesmo brigar, nenhuma aprazível paisagem, sem bichos, nem árvores, nem canto de pássaros para alegrar meus dias. Que tédio, um minuto parece uma eternidade. Resolvo este problema ou não me chamo deus, vocês vão ver. Então, como um mago, que ainda não existia, umas palavrinhas e criou o mundo. Pra dizer a verdade, nem o criou, apenas separou o nada que era o tudo, onde morava e com o qual se confundia, chamando de céu, a parte escolhida por ele, e de terra, o resto; Não criou o inferno, porque o livro  não o menciona, alguns de seus astutos seguidores, muito tepo depois, observando que ele falhara neste particular, resolveram criar o inferno para infundir medo na turba. Não se sabe qual língua usada por ele, porque nem a bíblia diz, nem os estudiosos conseguiram descobrir sua língua materna, nem a das criaturas que ele iria criar no futuro, Adão e Eva. Mas, segundo dizem, deus é brasileiro, podendo-se  afirmar, de cátedra: Chamou a terra de terra mesmo e o céu de céu, em castiço português. Entretanto, nunca se fica satisfeito com o que se tem, sempre se quer mais, disse então consigo mesmo. Tá uma chatice, só. Para que este mundão todo, se não tem ninguém pra tomar conta? Não posso deixar meu céu todos os dias para administrar a terra, mas se a deixar a toa, vai virar um brega total. Vou ter que criar alguma coisa que administre a terra. Pensou e pensou muito, como sempre, sozinho, porque não havia ninguém para o aconselhar, nem mesmo os anjos, porque estes só foram criados, após terem suas novas criaturas comido uma tal fruta proibida. Pensou tanto que terminou fazendo merda, pois chegara à nefasta conclusão de que deveria criar um cara parecido com ele para a administração de sua obra. Assim, criou, do barro, uma figura tal como ele, só que mais jovem, mais bonito e mais simpático. Nisso, ficou admirando sua obra, que considerou sua obra prima e ficou com uma peninha danada do cara. Coitado ficar sozinho neste mundaréu, sem ninguém para conversar. Não vir todos os dias aqui bater um papinho. Foi aí que ele errou. Não sou eu que estou dizendo que ele errou, é o livro,  é  a Igreja Católica que dizem isto. Longe de mim esta veleidade de dizer que ele errou. E até parece que houve uma espécie de traição. É que ele botou a criatura que ele criou, chamada Adão, para dormir, hipnotizando-o,  e enquanto ele dormia, arrancou-lhe uma costela e fez outro parecido, mas não igual, pois no lugar do pênis, colocou uma cona. Quando Adão acordou tomou um susto danado e quase saía correndo, mas o senhor, com um olhar malicioso, lhe disse, fica aí rapaz, não está vendo que trouxe uma pessoa para você brincar no jardim? Ela se chama Eva. Foi então que Adão observou bem e viu que aquela criatura ia ser sua delícia pelo resto da vida. Neste momento o senhor ficou sério, categórico e falou: Olha gente, vocês podem comer de todos os frutos aqui, até mesmo aquele que a Eva tem entre coxas, mas pelo amor de deus, não me coma aquela fruta daquela árvore ali. Adão, ingenuo, como todo o homem, perguntou. Mas por quê, senhor, logo aquela, tão bonita. deus disse: Aquela é a árvore do bem e do mal. Vocês acreditam que Adão obedeceu? Uma ova, uma bela tarde, depois de terem comido um bocado daqueles frutos, até mesmo o fruto dela, e ela ter chupado o fruto dele, cansados, como sempre, depois destas traquinices, pegaram no sono. Também é certo que ao se acordar, se estar com fome de leão, sem falar que o vegetal se desgasta mais rápido e tudo indica que neste dia não tinham comido carne. Foi Eva, em geral é assim,  quem acordou primeiro. Justamente aí, ao levantar-se da macia cama de relvas, ouviu uma voz. Eva, Eva, Eva. Pensou até ter sido   Senhor, querendo se aproveitar do sono de Adão pra fazer ousadia. Olhou para todos os lados e não o viu. Deu graças a Deus. Ter que dar pra aquele velho rabugento. Não é que a voz chamou novamente? Tomou um susto. Estava bem ali na árvore do bem e do mal. Com uma fruta na mão lhe dizia: Experimente esta fruta, é a melhor daqui. Ela estacou. Lembrou das ameaças do senhor. Mas, aquela criatura tinha um poder encantatório, tomou, então,  do fruto lascou lo dente. Não é que a desgraçadinha é gostosa? Chamou Adão, como boa companheira, não poderia deixá-lo sem experimentar de tão doce fruto. Ainda sonolento, Adão, pegou da fruta e tirou uma mordida e viu que era boa. Pra que? Não demorou muito, talvez alguns segundos, apesar da distância entre o céu e a terra, e o senhor lhes aparece tremendo de raiva. Eles correram e se esconderam atrás de uma parreira. Pegaram umas folhas da parreira e cobriram o corpo, lamentando não terem tido tempo de se esconder atrás das bananeiras, de folhas maiores pra cobrir melhor o corpo. Foi, então, que o senhor, talvez por causa da ira, posto que quando se está irado, se perde um pouco a  razão, chamando-os ao gritos,  cometeu uma cacofonia: Eva e Adão  onde estão vocês? Não adianta se esconderem, agora, sabem já que tudo vejo, tudo sei, só quero ouvir de suas bocas, o que vocês fizeram de errado para estarem cobertos de folhas? Eva, sempre mais afoita interroga o Senhor. Se o Senhor já sabe, por que quereis nos infligir estes martírio? Só faltou o Senhor dizer: Que sujeitinha mais desassuntada, mas calou em sua ira e esperou impassível, até Adão, acovardado e envergonhado, disse: Foi ela que me deu do fruto proibido; Afoita e de cabeça erguida, retrucou: Foi a serpente que tu criastes que mo deu, não vi nada de mais e comi e achei bom. Pois já que achastes bom, expulsá-los-ei deste jardim, e de agora em diante, comereis do suor do próprio rosto. E não tem choro, nem vela, peguem seus paninhos de bunda e se piquem de meu jardim. Nem é preciso dizer que saíram dali com uma quente outra fervendo. Andaram sem rumo por campos desconhecidos, porque antes não saíam do jardim, até chegar a noite, quando pousaram numa caverna, onde dormiram até o dia amanhecer. Para perderem o costume a primeira coisa que fizeram foi dar uma. Pensaram, já que perdemos o paraíso, vamos continuar nossa comilança porque a fruita aqui também é boa. E o resultado desta comilança se chamou Caim e Abel.
                     Quem constitui família está sujeito a decepções e Adão e Eva não foram uma exceção. Mas eles põe a culpa de tal assassinato ao Senhor porque eles deram uma educação aos filhos, só não os mandaram à universidade, porque os homens ocupados com guerras, conquistas e outras frutiquices, só foram inventar este tipo de ensino na idade média.
                       Caim, era agricultor, Abel pastor. Não é que um dia Caim matou Abel? Por puro  ciúme. É que o senhor disse que se agradava mais dos sacrifícios de Abel, eis que a fumaça dos carneiros sacrificados cheirava mais e subia até os céus, onde ele habitava, ao passo que a fumaça dos frutos de Caim, nem tocava as nuvens
                  Matando caim a  Abel, foge lamentando-se e temeroso de que alguém o encontrasse e o matasse. Mas como poderia ele encontrar alguém, se na terra, neste momento só existia três pessoas: Ele próprio, seu pai e sua mãe? Por aí se vê a falta que fez não ter Caim cursado uma Universidade. Seu conhecimento de demografia era zero, e de matemática ainda pior. Como, não saber, que havendo na terra, só quatro pessoas ele, seu irmão, seu pai e sua mãe, tendo ele matado seu irmão, não poderia encontrar mais ninguém na terra? E para complicar as coisas o Senhor pôs um sinal em Caim para que ninguém o matasse. Deste pode-se deduzir duas coisas ou o senhor assim o fez para atormentar a Caim, já que sabia não haver outras pessoas na terra que aqueles três, e aí, o senhor se mostra um autentico mal carácter e torturador, ou então ele também ignorante de demografia e matemática.
                Mas a coisa não fica por aí. Dizem que Caim, em suas andanças, terminou na terra de Node e lá conheceu sua mulher  que lhe gerou  Enoque.
                  Há uma contradição aqui. Eu quero crer que quem escreveu isto pulou um trecho. Mas como se a Bíblia é a palavra de Deus? Não pode haver contradição. Vamos admitir que o Senhor para atormentar mais ainda o pobre do Caim povoou uma terra que chamou de Node, onde ele teria conhecido sua mulher. E o pobre do Enoque? Filho de um fratricida, devia sofrer horrores dos coleguinhas de escolas. Neste tempo não se chamava de bullyng, até porque admitindo-se que deus era brasileiro, e, portanto, falava português, todos falavam português, caso contrário, não teriam como se comunicar com o Altíssimo, e aí eles chamavam de inticação ou enticação, zombaria ou outras palavras, porque nesta matéria o português é rico.  
                      A coisa é cada vez mais complicada. Teria Caim edificado uma cidade a que deu o nome do filho, uma cidade para ninguém, a não ser que se admita ter o pobre Caim e sua mulher tenham  virado ratos e gerado filhos para povoar a cidade.
                       Tudo muito complicado e confuso.

     

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

EU SUNT STEPHEN PADDOCK

                               










                                                       
                                                       Sim. Sou Stephen Paddock. Que mal fiz eu, perto das atrocidades do mundo? Milhões choram menos de uma centena de mortos e alguns feridos, esquecidos dos milhões mortos pelas guerras, que nada mais são do que terrorismo de Estado. Não, não é para justificar meus atos, nem quero que me perdoem. Apenas, vejam. Não sou melhor nem pior de quem, hoje, me apedreja. Saibam. Nunca  eles vão te contar a verdade. Mentem dizendo que me matei. Eles dizem isto com todos. Matam para silenciar as razões de nosso ato. Querem manter a imagem de um país uno, sem divergência. Anos ouvindo. Somos a maior nação e nossa forma de vida, a melhor. E em nome disso, mandam-nos à guerra matar irmãos. Quantos morrem, diariamente,  no mundo por nossas mãos? Um dia recebi um chamado. Uma voz nunca antes ouvista. E me preparei para servir à aquela causa. Inchalá. Deste local privilegiado eu vejo toda a orgia que se perpetra lá embaixo. Ah humanidade podre, enquanto isto, milhões de irmãos morrem de fome, sede e frio. Nesta hora ninguém se lembra de Deus, mas daqui a pouco todos gritarão seu nome. Canto e risos serão gritos e gemidos. Ouvirá o Senhor, Deus é Grande, seus gritos? Logo, logo o FBI dirá: Um ataque isolado, de um louco, nada a ver com Estado Islâmico. Até apelido. E como eles explicam tantas armas, tanto equipamento? Lobo solitário, só rindo. Será o povo imbecil para acreditar neles? Breve, o mundo falará de mim, mesmo repetindo as mentiras oficiais, falarão. Outros irão mais longe. Indagarão, refletirão. Adeus vidinha medíocre de jogatinas e mesmice. Chorem, medíocres, mas agradeçam. Alguém os está levando à reflexão.

sexta-feira, 28 de julho de 2017
















                                                   
                                                         
                                                          As pernas dela estavam abertas, estiradas. Seus cabelos espalhados sobre o lençol. As dele dobradas, encolhidas, quase um feto. O que se passara ali? Ninguém saberá. Céus, testemunhas mudas, nada revelam. Passado, presente, futuro, escritos em língua indecifrável. Nus. Não me atrevi a olhar a nudez da morte de jovens inda virgens nos mistérios da vida. Que bela, disse, pudicamente. Flor desfeita, amar amargo. Tanta carne exposta, açougues vazios. As vitrines de Amesterdã estão, hoje, em toda parte, pessoas vendidas sob nossos olhos. Fingimos não ver. Dois corpos quase castos. Ali, na cama fria do hotel. Buscavam o amor. Que luz divina cortou-lhes o sopro?  Oh, Céus, implacáveis! Que fim macabro escrevestes nestes livros? Por quê, oh céus, permitis o murchar da flor, sem que venha o fruto? Tu decides, assim? Sem tempo de madurar o fruto? Para que os trouxestes à terra, então. Melhor que os tivessem deixado nos confins do infinito. Não quereis, oh Céus, que uns paguem pelo mal que outros fazem. Que injusto que seria. Isto mesmo,  quereis vós? Quão insaciáveis sois, quão sanguinários. Quanto sacrifício exigis de nós. Impondes fé e castigo para quem não crer. Dizei-me, oh Céus, não haverá um entre vós que se rebelará contra esta tirania? Assembleia terrífica, que guardais para os homens? Trabalho e castigo, para ficardes no ócio? Para isto os criastes? Não sois vós, obra de nosso medo? 
                                   Terno quadro de natureza morta. Terrível paz, se se pode chamar de paz a morte. Esta intrujã, enganadora.
                               Manhã nefasta.Teria eu, visto o casal entrar? Quantos por noite? Quantos gemidos? Quantos,  ali,  traindo alguém? Quantos, vendendo o corpo? Hoje, mulher e homem vendem seus corpos. Acha-se normal. Vai longe o tempo da prostituição sagrada. Sisudos sacerdotes de Ishtar, bem como santificados bispos da igreja, tomam das mulheres solteiras o dinheiro pago pelo ritual. Para crescer os meios são santos. Ritos? Que amor selvagem  se pratica, hoje,  nos hotéis, os novos santuários do amor?
                                 
                                    
                             
                                      
                                       

quinta-feira, 18 de maio de 2017























Horus vinha não se sabe donde, passava por um restaurante universitário. Não era o restaurante da Faculdade da Rua D`Assas, mais se assemelhava ao velho Restaurante Universítário do Corredor da Vitória, nos idos de 1964, quando fizera vestibular e frequentava vez por outra aquele comedouro, povoado de figuras folckloricas, como Wilson o eterno estudante que já passara por diversos cursos, sem se fixar nenhum ou como Graciliano,  poeta nascido em  Ubaitaba que, depois do almoço, subia na mesa e recitava seus versos. Neste momento sobrava comida  e se viam bandejas cheias, frutas e nosso conhecido romeu e julieta. Como Graciliano, subiu numa mesa e passou a andar por cima delas e embora tivesse vontade de pegar uma daquelas guloseimas, se conteve, com medo da repreensão do bedel. Havia uma mesa, com sucos gelados, enrolados em saquinhos plásticos, como um sorvete  congelado. Pegou um e começou a morder o plástico, quando viu vindo um homem negro,  visto antes, na entrada.  Não tinha mãos,  cotó de dois braços, logo percebeu a reclamação no ar. Perguntou,  apontando o gelado.  Posso?
Nada lhe respondeu e armou os bracinhos  para lhe socar. Era um neguim careca de olhos muito vivos, vestido de branco como os açougueiros. Quando  tentou lhe socar Horus  se protegeu atrás de um vaso de metal de onde retirara o geladinho. Tentou a segunda vez,  Horus o  encarou com seus olhos  de falcão
Abriu a boca, pôs as mãos em concha e emitiu, como Seth, um sopro. Uma torrente impetuosa saiu de sua garganta e sacudiu o homezinho a metros de distância. Ele começou a fazer sua confissão como se estivesse diante da Deusa pesadeira de almas:
 “Eu não amaldiçoei a Deus”, e começou a derreter-se, como  o sorvete no vento; “Não tenho me oposto à minha família e parentes”, as pernas se desfazem; “Eu não cometi crime”, os bracitos se despegam do tronco;  “Eu não cometi adultério”, esvai-se até a cintura; “Eu não roubei”, o tronco se desmilingue; “Eu não proferi mentiras”, é a vez do pescoço;  “Eu não defraudei o homem humilde de sua propriedade” Some-lhe a cabeça, os olhos, ouvidos e boca, num gemido, o último dos moribundos. Mistérios da vida. Vozes, vozes invadem o ar. Ouço, aturdido. Por quê temer a morte?
 É  o Requiem  de Nunes Garcia. Longe nas Minas Gerais fui parar. Vejo cenas assustadoras, aquelas pintadas por Bosch. Corpos disformes, braços voando, cabeças pendidas, bocas e bicos de animais gotejando sangue,  almas penadas, máquinas fantástica vomitando gente, freiras orando sob olhar de uma coruja diante de uma madre de focinho de porco. Anjos, demônios, homens e bichos se igualando, ora corpo de bicho, ora corpo humano. Volto a Capela, na igreja os restos mortais de Joaquim Machado. No Monte braços, pernas, velas votivas. E na Capela da Santa Cruz do  Monte em Mairi. Hoje ainda sonho com seus ossos e grutas. Será por isto que tenho medo de altura? Longe se vai o tempo menino. Velhas rezadeiras, terço na mão, xale na cabeça rezam em voz alta. Benditos e jaculatórias. Esmagado fico. Hora de acordar, não quero ver o homenzinho se derretendo. Um filete d´água saindo do que era seu corpo.  Formará um rio? Água, sonho do nordestino, mesmo com sacrifício humano. Não comiam os tupis seus adversários para adquirir sua coragem? Também podemos beber d´om-água.





terça-feira, 22 de julho de 2014

CENA ENTRE DOIS QUE SE AMAM


Peça em um ato publicado em 24.10.2005 no sítio: http://www.supergoa.com/pt/forum/read.asp?c_post=5084 que se publica aqui para se comprovar a anterioridade do título do livro Noite em Paris ao filme Meia Noite em Paris.


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Mensagem Cena Entre Dois Que Se Amam - Comentarios?

AutorElcarmo     Data: 24/10/2005     Mensagem lida 200 vezes
Cena entre dois que se amam
;
 EL CARMO


Dá encontra-se no quarto que toma ligeiramente o aspecto de um lugar sagrado. Algo como uma cela de seminário ou convento. Dá sozinho. Nervoso. Escreve folhas e folhas de papel
amassando-as logo em seguida. Enraivecido, pára. Fuma. Abre ;um livro. Fecha-o faz exercícios. Olha o relógio. Põe um disco na vitrola. Ensaia um movimento de dança. Faz-se de regente. Deita-se ouvindo a sinfonia. Nevena entra. Agita-se
;
DÁ – por que tão tarde? Não sabe que estou aflito?

NEVENA – não vejo porque tanta aflição. Você fica dias a fio
>sem nada fazer. Dorme mais que o devido. O que você é mesmo,
>é um grande preguiçoso.
>
>DÁ – (furioso) – você não pode dizer isto de mim.Eu dou duro.
>Eu sou responsável.
>
>NEVENA – preguiçoso e desorganizado.
>
>DÁ – chega. Se você veio aqui para me encher, então se pique.
>Saia já. Vá atrás de seus machos.
>
>NEVENA – o que? Você me diz isto? Vocês brasileiros são todos
>iguais. Uns machistas. Tudo na teoria é muito bonito, na
>prática são uns canalhas. Presunçosos.
>
>DÁ – E vocês europeus? Uns degenerados. Cartesianos imbecis.
>Uma civilização podre.
>
>NEVENA – Uma civilização que vocês procuram imitar. Vivem
>sonhando com a Europa, como se de lá tivessem sido
>desterrados. É o complexo de bastardia. Todo brasileiro é
>complexado, porque não sabe de onde veio. São uns filhos de
>ninguém. Um povo sem noção de suas origens. Você sabe quem
>foi o seu bisavô, seu trisavô, seu tetravô? Não sabe. É um
>bastardo. Não sabe sua origem. Por isto vocês estão sempre
>fora da realidade. Não conseguem enxergar os problemas da
>nação. São uns sonhadores inconseqüentes. Você mesmo quando
>estava na Europa vivia pensando no Brasil. Hoje está no
>Brasil e sonha com a Europa. É um desajustado. Não vê o que
>esta em redor de si. Passa, passa o tempo e nada faz. É um
>desastre total. O autor das obras incompletas. Nunca termina
>uma obra. “Estou escrevendo um romance. Vai dar o que
>falar”. “Devo terminar minha peça este ano”. “O diretor tal,
>está interessado em montá-la”. “Estou preparando um livro de
>contos para ser lançado na Finlândia. Marita está querendo
>edita-lo".Porra Põe a cabeça no lugar. Te concentra e faz uma
>coisa só, assim você não vai para lugar nenhum.
>
>DÁ – se você admite que sou um fracasso, porque fica comigo?
>Deixe-me com o meu fracasso. Eu não preciso de sua ajuda.
>
>NEVENA – Um fracassado sim. Seus personagens, no fundo uns
>fracassados também. O sucesso deles é a imagem do seu
>fracasso.
>
>DÁ – Pois eu vou provar a você e ao mundo que eu tenho
>talento. Provarei. Nem que tenha que tocar fogo no mundo. Nem
>que tenha de beijar o Papa. Nem que tenha de matar o Papa.
>
>NEVENA – Nero não foi mais insensato!
>
>DÁ – Aí é que você se engana, querida. Nero foi um gênio. Ele
>morreu há séculos e ainda se fala nele. Você esta viva e nem
>se sabe que você existe.
>
>NEVENA – Eu não sou megalomaníaca.
>
>DÁ – Porque é medíocre. Eu, não. Aspiro fama e dinheiro.
>Serei mais famoso que o Cristo, que Maomé, mais que a coca-
>cola.
>
>NEVENA – Tão insensato é, que mistura dois grandes homens com
>um produto da sociedade de consumo que você tanto diz
>detestar.
>
>DÁ – Sim. Detesto, sim. Por ser um símbolo da massificação,
>mas não posso negar que a coca-cola é mais conhecida do que
>estes dois grandes homens. Cristo, Buda, Maomé os três
>maiores homens que a humanidade produziu. Eles, entretanto
>não passam de fenômenos da comunicação. A coca-cola é um
>fenômeno maior que eles três. Eu serei maior que todos.
>
>NEVENA – Querer não é poder, quando não o fazer. E você nada
>faz para isto acontecer. Do jeito que você vai, terminará
>amarrado num hospício, e com todo prazer irei levar cigarros
>para você.
>
>DÁ – Se estou indo a loucura, você é quem está me levando. E
>isto eu não permitirei. Não tenho nenhum sentimento por quem
>se põe em meu caminho. Eu aniquilarei qualquer um. Mesmo que
>seja meu pai, minha mãe, meu filho.
>
>NEVENA – Você é um monstro de egoísmo. Só pensa em si
>próprio. Não gosta de ninguém. Nem de você mesmo.
>
>DÁ – Engano seu, beleza. Aí é que esta a sua incapacidade de
>me entender. Mediocridade pura. Não pode entender um gênio.
>Não pode ver a humanidade que há em mim.
>
>NEVENA - Tenho pena de você. Vai terminar os dias sozinho,
>como um cão danado, pois cada dia se torna mais
>insuportável. Não há mulher por mais abnegada que seja que
>tolere suas manias. Não dá para entender. Me chama de
>medíocre! Já pensou nas mulheres com quem você perde tempo?
>Não se envergonha disto?
>
>DÁ – A mulher é um acidente na vida de um homem. Eu não
>quero nenhuma, porque não quero ser ninguém. Além do mais,
>não tenho de prestar contas a você, nem a ninguém. Nem mesmo
>a Deus, se é que ele existe. E bem que eu gostaria que ele
>existisse e que eu o encontrasse para cuspir na cara dele.
>Ditador cruel que vive a atormentar os homens com suas leis.
>Eu elejo Lúcifer como meu protetor. Por ter sido o primeiro
>ser a dar o grito de independência e ter construído seu
>próprio mundo.
>
> NEVENA – Você está fora de si e não dar pra
>conversar. Atinge a tudo e a todos, e não estou pronta a
>suportar sua irracionalidade. Qualquer dia deste te largo e
>pronto. Tudo acabado.
>
>Dá – Qualquer dia não. Hoje e já. Não quero mais te ver na
>minha frente. São todas iguais, brasileiras, européias, o
>diabo. As mulheres realmente só se deve dar duas coisas: o
>presente do P. Pica e porrada.
>
>DÁ – pega de algo e atiça contra ela – pelo amor de Deus saia
>da minha frente. Eu não quero ser o assassino da mulher que
>eu amo.
>
>NEVENA – que amor é este?
>
>DÁ – cala a boca. Nem mais uma palavra, se não eu te parto a
>cara.
>
>Cala a boca? Ditador, execrável tirano. Você renega tudo que
>aprendeu. Tenho pena de teu fim.
>
>DÁ – quem é você para ter pena de mim? Puta descarada.
>Investe contra ela. Bate-lhe. Ela se agarra a ele. Chora
>apanhando. Lutam. Ele a derruba. Tenta sufocá-la com um
>travesseiro. Ela esta por sufoca-se. Consegue com esforço
>tirar o travesseiro de seu rosto. Grita:
>
>NEVENA – Dá, nosso filho. Você me prometeu um filho, nosso
>filho.
>
>DÁ levanta-se de cima dela, começa a chorar desesperado.
>
>DÁ – você me enfureceu. Não devia ter me provocado. Eu quase
>me torno um assassino da mãe de meu filho. Nunca pensei um
>dia bater em uma mulher. Você é a única culpada.
>
>NEVENA – vou-me embora, não fico mais aqui – tenta levantar-
>se. Não consegue. Cai. Dá corre para ampara-la. Toma-a nos
>braços. Leva para a cama. Corre a procura de remédio. Pega um
>copo com água. Dá-lhe. Ela se recusa.
>
>NEVENA – Não, não, eu quero morrer. De nada mais adianta
>viver. Tudo acabado.
>
>DÁ – ameaçador e solícito – quer morrer? Beba. Beba logo.
>Quer me complicar? Beba. É para o nosso bem. Por nosso filho.
>É preciso viver. Por ele. Por nós. Beba amor.
>
>NEVENA bebe o remédio entre soluços. Cai na cama. Ele também,
>ao lado. Choram ambos. A luz vai se apagando e se torna
>escuro.
> EL CARMO
>

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Continuação no livro Noite em Paris, breve nas livrarias.

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