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segunda-feira, 2 de outubro de 2017

EU SUNT STEPHEN PADDOCK

                               










                                                       
                                                       Sim. Sou Stephen Paddock. Que mal fiz eu, perto das atrocidades do mundo? Milhões choram menos de uma centena de mortos e alguns feridos, esquecidos dos milhões mortos pelas guerras, que nada mais são do que terrorismo de Estado. Não, não é para justificar meus atos, nem quero que me perdoem. Apenas, vejam. Não sou melhor nem pior de quem, hoje, me apedreja. Saibam. Nunca  eles vão te contar a verdade. Mentem dizendo que me matei. Eles dizem isto com todos. Matam para silenciar as razões de nosso ato. Querem manter a imagem de um país uno, sem divergência. Anos ouvindo. Somos a maior nação e nossa forma de vida, a melhor. E em nome disso, mandam-nos à guerra matar irmãos. Quantos morrem, diariamente,  no mundo por nossas mãos? Um dia recebi um chamado. Uma voz nunca antes ouvista. E me preparei para servir à aquela causa. Inchalá. Deste local privilegiado eu vejo toda a orgia que se perpetra lá embaixo. Ah humanidade podre, enquanto isto, milhões de irmãos morrem de fome, sede e frio. Nesta hora ninguém se lembra de Deus, mas daqui a pouco todos gritarão seu nome. Canto e risos serão gritos e gemidos. Ouvirá o Senhor, Deus é Grande, seus gritos? Logo, logo o FBI dirá: Um ataque isolado, de um louco, nada a ver com Estado Islâmico. Até apelido. E como eles explicam tantas armas, tanto equipamento? Lobo solitário, só rindo. Será o povo imbecil para acreditar neles? Breve, o mundo falará de mim, mesmo repetindo as mentiras oficiais, falarão. Outros irão mais longe. Indagarão, refletirão. Adeus vidinha medíocre de jogatinas e mesmice. Chorem, medíocres, mas agradeçam. Alguém os está levando à reflexão.

sexta-feira, 28 de julho de 2017
















                                                   
                                                         
                                                          As pernas dela estavam abertas, estiradas. Seus cabelos espalhados sobre o lençol. As dele dobradas, encolhidas, quase um feto. O que se passara ali? Ninguém saberá. Céus, testemunhas mudas, nada revelam. Passado, presente, futuro, escritos em língua indecifrável. Nus. Não me atrevi a olhar a nudez da morte de jovens inda virgens nos mistérios da vida. Que bela, disse, pudicamente. Flor desfeita, amar amargo. Tanta carne exposta, açougues vazios. As vitrines de Amesterdã estão, hoje, em toda parte, pessoas vendidas sob nossos olhos. Fingimos não ver. Dois corpos quase castos. Ali, na cama fria do hotel. Buscavam o amor. Que luz divina cortou-lhes o sopro?  Oh, Céus, implacáveis! Que fim macabro escrevestes nestes livros? Por quê, oh céus, permitis o murchar da flor, sem que venha o fruto? Tu decides, assim? Sem tempo de madurar o fruto? Para que os trouxestes à terra, então. Melhor que os tivessem deixado nos confins do infinito. Não quereis, oh Céus, que uns paguem pelo mal que outros fazem. Que injusto que seria. Isto mesmo,  quereis vós? Quão insaciáveis sois, quão sanguinários. Quanto sacrifício exigis de nós. Impondes fé e castigo para quem não crer. Dizei-me, oh Céus, não haverá um entre vós que se rebelará contra esta tirania? Assembleia terrífica, que guardais para os homens? Trabalho e castigo, para ficardes no ócio? Para isto os criastes? Não sois vós, obra de nosso medo? 
                                   Terno quadro de natureza morta. Terrível paz, se se pode chamar de paz a morte. Esta intrujã, enganadora.
                               Manhã nefasta.Teria eu, visto o casal entrar? Quantos por noite? Quantos gemidos? Quantos,  ali,  traindo alguém? Quantos, vendendo o corpo? Hoje, mulher e homem vendem seus corpos. Acha-se normal. Vai longe o tempo da prostituição sagrada. Sisudos sacerdotes de Ishtar, bem como santificados bispos da igreja, tomam das mulheres solteiras o dinheiro pago pelo ritual. Para crescer os meios são santos. Ritos? Que amor selvagem  se pratica, hoje,  nos hotéis, os novos santuários do amor?
                                 
                                    
                             
                                      
                                       

quinta-feira, 18 de maio de 2017























Horus vinha não se sabe donde, passava por um restaurante universitário. Não era o restaurante da Faculdade da Rua D`Assas, mais se assemelhava ao velho Restaurante Universítário do Corredor da Vitória, nos idos de 1964, quando fizera vestibular e frequentava vez por outra aquele comedouro, povoado de figuras folckloricas, como Wilson o eterno estudante que já passara por diversos cursos, sem se fixar nenhum ou como Graciliano,  poeta nascido em  Ubaitaba que, depois do almoço, subia na mesa e recitava seus versos. Neste momento sobrava comida  e se viam bandejas cheias, frutas e nosso conhecido romeu e julieta. Como Graciliano, subiu numa mesa e passou a andar por cima delas e embora tivesse vontade de pegar uma daquelas guloseimas, se conteve, com medo da repreensão do bedel. Havia uma mesa, com sucos gelados, enrolados em saquinhos plásticos, como um sorvete  congelado. Pegou um e começou a morder o plástico, quando viu vindo um homem negro,  visto antes, na entrada.  Não tinha mãos,  cotó de dois braços, logo percebeu a reclamação no ar. Perguntou,  apontando o gelado.  Posso?
Nada lhe respondeu e armou os bracinhos  para lhe socar. Era um neguim careca de olhos muito vivos, vestido de branco como os açougueiros. Quando  tentou lhe socar Horus  se protegeu atrás de um vaso de metal de onde retirara o geladinho. Tentou a segunda vez,  Horus o  encarou com seus olhos  de falcão
Abriu a boca, pôs as mãos em concha e emitiu, como Seth, um sopro. Uma torrente impetuosa saiu de sua garganta e sacudiu o homezinho a metros de distância. Ele começou a fazer sua confissão como se estivesse diante da Deusa pesadeira de almas:
 “Eu não amaldiçoei a Deus”, e começou a derreter-se, como  o sorvete no vento; “Não tenho me oposto à minha família e parentes”, as pernas se desfazem; “Eu não cometi crime”, os bracitos se despegam do tronco;  “Eu não cometi adultério”, esvai-se até a cintura; “Eu não roubei”, o tronco se desmilingue; “Eu não proferi mentiras”, é a vez do pescoço;  “Eu não defraudei o homem humilde de sua propriedade” Some-lhe a cabeça, os olhos, ouvidos e boca, num gemido, o último dos moribundos. Mistérios da vida. Vozes, vozes invadem o ar. Ouço, aturdido. Por quê temer a morte?
 É  o Requiem  de Nunes Garcia. Longe nas Minas Gerais fui parar. Vejo cenas assustadoras, aquelas pintadas por Bosch. Corpos disformes, braços voando, cabeças pendidas, bocas e bicos de animais gotejando sangue,  almas penadas, máquinas fantástica vomitando gente, freiras orando sob olhar de uma coruja diante de uma madre de focinho de porco. Anjos, demônios, homens e bichos se igualando, ora corpo de bicho, ora corpo humano. Volto a Capela, na igreja os restos mortais de Joaquim Machado. No Monte braços, pernas, velas votivas. E na Capela da Santa Cruz do  Monte em Mairi. Hoje ainda sonho com seus ossos e grutas. Será por isto que tenho medo de altura? Longe se vai o tempo menino. Velhas rezadeiras, terço na mão, xale na cabeça rezam em voz alta. Benditos e jaculatórias. Esmagado fico. Hora de acordar, não quero ver o homenzinho se derretendo. Um filete d´água saindo do que era seu corpo.  Formará um rio? Água, sonho do nordestino, mesmo com sacrifício humano. Não comiam os tupis seus adversários para adquirir sua coragem? Também podemos beber d´om-água.





terça-feira, 22 de julho de 2014

CENA ENTRE DOIS QUE SE AMAM


Peça em um ato publicado em 24.10.2005 no sítio: http://www.supergoa.com/pt/forum/read.asp?c_post=5084


F Ó R U M
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Mensagem Cena Entre Dois Que Se Amam - Comentarios?

AutorElcarmo     Data: 24/10/2005     Mensagem lida 200 vezes
Cena entre dois que se amam
;
 EL CARMO


Dá encontra-se no quarto que toma ligeiramente o aspecto de um lugar sagrado. Algo como uma cela de seminário ou convento. Dá sozinho. Nervoso. Escreve folhas e folhas de papel
amassando-as logo em seguida. Enraivecido, pára. Fuma. Abre ;um livro. Fecha-o faz exercícios. Olha o relógio. Põe um disco na vitrola. Ensaia um movimento de dança. Faz-se de regente. Deita-se ouvindo a sinfonia. Nevena entra. Agita-se
;
DÁ – por que tão tarde? Não sabe que estou aflito?

NEVENA – não vejo porque tanta aflição. Você fica dias a fio
>sem nada fazer. Dorme mais que o devido. O que você é mesmo,
>é um grande preguiçoso.
>
>DÁ – (furioso) – você não pode dizer isto de mim.Eu dou duro.
>Eu sou responsável.
>
>NEVENA – preguiçoso e desorganizado.
>
>DÁ – chega. Se você veio aqui para me encher, então se pique.
>Saia já. Vá atrás de seus machos.
>
>NEVENA – o que? Você me diz isto? Vocês brasileiros são todos
>iguais. Uns machistas. Tudo na teoria é muito bonito, na
>prática são uns canalhas. Presunçosos.
>
>DÁ – E vocês europeus? Uns degenerados. Cartesianos imbecis.
>Uma civilização podre.
>
>NEVENA – Uma civilização que vocês procuram imitar. Vivem
>sonhando com a Europa, como se de lá tivessem sido
>desterrados. É o complexo de bastardia. Todo brasileiro é
>complexado, porque não sabe de onde veio. São uns filhos de
>ninguém. Um povo sem noção de suas origens. Você sabe quem
>foi o seu bisavô, seu trisavô, seu tetravô? Não sabe. É um
>bastardo. Não sabe sua origem. Por isto vocês estão sempre
>fora da realidade. Não conseguem enxergar os problemas da
>nação. São uns sonhadores inconseqüentes. Você mesmo quando
>estava na Europa vivia pensando no Brasil. Hoje está no
>Brasil e sonha com a Europa. É um desajustado. Não vê o que
>esta em redor de si. Passa, passa o tempo e nada faz. É um
>desastre total. O autor das obras incompletas. Nunca termina
>uma obra. “Estou escrevendo um romance. Vai dar o que
>falar”. “Devo terminar minha peça este ano”. “O diretor tal,
>está interessado em montá-la”. “Estou preparando um livro de
>contos para ser lançado na Finlândia. Marita está querendo
>edita-lo".Porra Põe a cabeça no lugar. Te concentra e faz uma
>coisa só, assim você não vai para lugar nenhum.
>
>DÁ – se você admite que sou um fracasso, porque fica comigo?
>Deixe-me com o meu fracasso. Eu não preciso de sua ajuda.
>
>NEVENA – Um fracassado sim. Seus personagens, no fundo uns
>fracassados também. O sucesso deles é a imagem do seu
>fracasso.
>
>DÁ – Pois eu vou provar a você e ao mundo que eu tenho
>talento. Provarei. Nem que tenha que tocar fogo no mundo. Nem
>que tenha de beijar o Papa. Nem que tenha de matar o Papa.
>
>NEVENA – Nero não foi mais insensato!
>
>DÁ – Aí é que você se engana, querida. Nero foi um gênio. Ele
>morreu há séculos e ainda se fala nele. Você esta viva e nem
>se sabe que você existe.
>
>NEVENA – Eu não sou megalomaníaca.
>
>DÁ – Porque é medíocre. Eu, não. Aspiro fama e dinheiro.
>Serei mais famoso que o Cristo, que Maomé, mais que a coca-
>cola.
>
>NEVENA – Tão insensato é, que mistura dois grandes homens com
>um produto da sociedade de consumo que você tanto diz
>detestar.
>
>DÁ – Sim. Detesto, sim. Por ser um símbolo da massificação,
>mas não posso negar que a coca-cola é mais conhecida do que
>estes dois grandes homens. Cristo, Buda, Maomé os três
>maiores homens que a humanidade produziu. Eles, entretanto
>não passam de fenômenos da comunicação. A coca-cola é um
>fenômeno maior que eles três. Eu serei maior que todos.
>
>NEVENA – Querer não é poder, quando não o fazer. E você nada
>faz para isto acontecer. Do jeito que você vai, terminará
>amarrado num hospício, e com todo prazer irei levar cigarros
>para você.
>
>DÁ – Se estou indo a loucura, você é quem está me levando. E
>isto eu não permitirei. Não tenho nenhum sentimento por quem
>se põe em meu caminho. Eu aniquilarei qualquer um. Mesmo que
>seja meu pai, minha mãe, meu filho.
>
>NEVENA – Você é um monstro de egoísmo. Só pensa em si
>próprio. Não gosta de ninguém. Nem de você mesmo.
>
>DÁ – Engano seu, beleza. Aí é que esta a sua incapacidade de
>me entender. Mediocridade pura. Não pode entender um gênio.
>Não pode ver a humanidade que há em mim.
>
>NEVENA - Tenho pena de você. Vai terminar os dias sozinho,
>como um cão danado, pois cada dia se torna mais
>insuportável. Não há mulher por mais abnegada que seja que
>tolere suas manias. Não dá para entender. Me chama de
>medíocre! Já pensou nas mulheres com quem você perde tempo?
>Não se envergonha disto?
>
>DÁ – A mulher é um acidente na vida de um homem. Eu não
>quero nenhuma, porque não quero ser ninguém. Além do mais,
>não tenho de prestar contas a você, nem a ninguém. Nem mesmo
>a Deus, se é que ele existe. E bem que eu gostaria que ele
>existisse e que eu o encontrasse para cuspir na cara dele.
>Ditador cruel que vive a atormentar os homens com suas leis.
>Eu elejo Lúcifer como meu protetor. Por ter sido o primeiro
>ser a dar o grito de independência e ter construído seu
>próprio mundo.
>
> NEVENA – Você está fora de si e não dar pra
>conversar. Atinge a tudo e a todos, e não estou pronta a
>suportar sua irracionalidade. Qualquer dia deste te largo e
>pronto. Tudo acabado.
>
>Dá – Qualquer dia não. Hoje e já. Não quero mais te ver na
>minha frente. São todas iguais, brasileiras, européias, o
>diabo. As mulheres realmente só se deve dar duas coisas: o
>presente do P. Pica e porrada.
>
>DÁ – pega de algo e atiça contra ela – pelo amor de Deus saia
>da minha frente. Eu não quero ser o assassino da mulher que
>eu amo.
>
>NEVENA – que amor é este?
>
>DÁ – cala a boca. Nem mais uma palavra, se não eu te parto a
>cara.
>
>Cala a boca? Ditador, execrável tirano. Você renega tudo que
>aprendeu. Tenho pena de teu fim.
>
>DÁ – quem é você para ter pena de mim? Puta descarada.
>Investe contra ela. Bate-lhe. Ela se agarra a ele. Chora
>apanhando. Lutam. Ele a derruba. Tenta sufocá-la com um
>travesseiro. Ela esta por sufoca-se. Consegue com esforço
>tirar o travesseiro de seu rosto. Grita:
>
>NEVENA – Dá, nosso filho. Você me prometeu um filho, nosso
>filho.
>
>DÁ levanta-se de cima dela, começa a chorar desesperado.
>
>DÁ – você me enfureceu. Não devia ter me provocado. Eu quase
>me torno um assassino da mãe de meu filho. Nunca pensei um
>dia bater em uma mulher. Você é a única culpada.
>
>NEVENA – vou-me embora, não fico mais aqui – tenta levantar-
>se. Não consegue. Cai. Dá corre para ampara-la. Toma-a nos
>braços. Leva para a cama. Corre a procura de remédio. Pega um
>copo com água. Dá-lhe. Ela se recusa.
>
>NEVENA – Não, não, eu quero morrer. De nada mais adianta
>viver. Tudo acabado.
>
>DÁ – ameaçador e solícito – quer morrer? Beba. Beba logo.
>Quer me complicar? Beba. É para o nosso bem. Por nosso filho.
>É preciso viver. Por ele. Por nós. Beba amor.
>
>NEVENA bebe o remédio entre soluços. Cai na cama. Ele também,
>ao lado. Choram ambos. A luz vai se apagando e se torna
>escuro.
> EL CARMO
>

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Continuação no livro Noite em Paris, breve nas livrarias.

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sábado, 28 de junho de 2014

COPA DO MUNDO


Se o Brasil perder esta partida contra o Chile a culpa será toda da imprensa laudatória.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

O PRAZER É AGORA














         Se arrependeu de ter emprestado seus dólares para  Rolembergue. Confirmado estava. Brasileiro, povinho enrolado. Francês não gosta de brasileiros, com razão. Zuadentos, metidos a gás com água e  mal-educados. Olhava o quadro de anúncios  n`Aliança Francesa. Só por hábito, porque não queria mais ajudar ninguém, depois de lhe terem roubado tudo em uma festa que dera. Perfumes, roupas, sapatos que ganhava das lojas onde levava turistas. Rolembergue ouvira falar. Chamam-no Consul Particular do Brasil. Desconfiavam até. O cara é do DOPS, quem não vê? Está sempre discutindo política, para descobrir comunistas, esta, uma das táticas do DOPS. Infiltração.  No Brasil está tudo minado, há informantes até nas latrinas, a gente deve ter cuidado. Não é bolsista, não é rico, quem o sustenta? Não é exilado político, como Valdir, Juscelino  e Arraes. É Alcaguete, com certeza, dedo duro. Diz, com orgulho, ter criado o termo racista para os que vieram a Paris, sem bolsa de estudos, e que foi o primeiro racista a chegar. Quem viu?  Nossa ficha no DOPS deve estar mais suja do que pau de galinheiro. Não porra, ele é mesmo um cara retado. Veio praqui sozinho. Não esperou a “gloriosa”  intervir, se picou logo. Quem espera tempo ruim é lagedo. Ou jegue. Nordestino é gente? Você é do Nordeste, não é? Não, sou do Leste. Do Leste? Onde é o Leste? A Bahia fica no Leste do Brasil. Ah, então eu também sou do Leste, porque sou de Sergipe. É. O quintal da Bahia. Não, o jardim.  Queria que você me conseguisse um Studio. Chegando agora,  não falo francês, não conheço nada. Não queria incomodar, mas. Prometi não ajudar mais ninguém. Brasileiro só quer  levar vantagem. Quando consegue o que quer,  adeus. Desculpe, mas nem todos são iguais, você não deve generalizar. Esta é minha experiência com brasileiros. Estou te pedindo um favor, em nome da  cordialidade brasileira. Tá legal, só porque  você é sergipano, vou dar uma ajudinha, tenho alguns amigos lá. Verdade?  Diga  um, talvez conheça. Rolembergue. Rolembergue sou eu. Abraços, chorôrô e abraços. Terra, apenas mantissa do universo. Quanto orgulho, o terráquo se acha o rei da cocada preta. Não passam de um cisco no universo intergaláctico.   Guardara por tanto tempo seu dinheiro para depois, como um palerma, entregar a quem não precisa. Alguns têm o dom de enganar, por isso dominam.  Filho, neto, bisneto, trineto ou lá que o seja de coronéis. Não precisa do dinheiro de quem o ganha com sacrifício e  suor de seu corpo. Puro prazer de enganar, educado para dominar, outros para obedecer.  Deus assim dispôs. Necas de pagamento. O valor se perdeu na vala do esquecimento, se diluiu no tempo, prescrito para cobrança.  Obrigação o tempo apaga, não a lembrança. Sei que  me deve, saberá ele?   É noite em Paris, precisa dormir cedo. Pegar o trampo nas Messageries Maritimes, limpar a bosta para o francês cagar novamente. Rolembergue não o deixa dormir, não é ele que vai limpar bosta, filhinho de papai, mauricinho. Quer saber de sua vida. Seu primeiro amor. Do  internato para colégio público. Noites doces com a presença dela. O latim do professor Petrônio aguçava a curiosidade da amada, seu melhor aluno.  Bela Trifena, sed mulier, quae mulier, miluinum genus. Se quiseres sofrimento ama. Lembra-te do que diz  Epicuro. Se  não és senhor do  amanhã, por que adiar  o momento de gozar o prazer possível? Consumimos nossa vida a esperar e morremos empenhados nessa espera do prazer. O prazer é agora. Amanhã serás verme, ossos e cinzas que alimentarão as ervas, alimento de pássaros,  insetos, vertebrados e invertebrados, mamíferos e outros bichos,   até o gás que tu cozinhas, e o petróleo que move o mundo. Que mistério a vida nos esconde? Não queiras saber, só do agora és senhor. Goza-o com todas tuas forças, nunc et semper, como bem aconselhava Gregório de Matos:
Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trata a toda ligeireza,
E imprime em toda a flor sua pisada.

Ó não aguardes, que a madura idade,
Te converta essa flor, essa beleza,
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.


Continuação no livro Noite em Paris, breve nas livrarias.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

QUAL FOI TEU FIM?


          





Dezassete de dezembro de 2006, Ita, vixi, quarenta e cinco anos mais sofridos que vividos. Queria matar  um deputado. Peixeirada sem mal nenhum.  Quem tem fome não tem força. Nem sabia  se queria mesmo matá-lo ou chamar atenção. Ambições sufocadas por pensão que não pensionam. Flagrada, indiciada, encarcerada. Olham-me como uma besta-fera. Confessar o que? Louca, débil mental. Desmoralizam a  revolta:  Ato insano. Um presente em Brasilia: Reajuste de noventa e um por cento, aos deputados, beira os índices de pobreza. Democracia,  invenção de quem  está no poder. Fingir que o povo  governa; Diverge e serás um louco, ridicularizado. Destino. Cadeia, manicômio, e morte. Médico corruptos  atestam tua loucura.  Assim foi na União Soviética, é nos Estados Unidos,  no mundo. Grossas verbas para a imprensa que é deles e o cara é um maluco, um palhaço. Mundo, poucos  mandam,  muitos  obedecem. Com pão e circo, mais circo do que pão, te governam. Indústria da diversão. Um anestésico. Tu te esqueces de ti. A democracia do mundo, de mentira, só os dominados obedecem, cumprem leis, eles, fazedores deleis, não precisam cumpri-las. A liberdade cantada e decantada por códigos e constituições não é para mim, nem para ti, a nós, o eito, bestas de carga. Ontem, hoje e amanhã, se ficarmos parados, e, a lei para obedecer. Aqui é só penar, se não me matarem antes, como dizem fizeram com o genro e também da filha. Nunca se sabe a verdade. Como não ter medo? As detentas não me olham com bons olhos. Maluca, assassina do menino. Nem matei já sou assassina. Não, arrepender  é negar tudo. O que é dele tá guardado. O velho pode botar as barbas de molho. Dirão um dia. Voz do negro, voz do pobre,  eles têem nojo, não se calou. “Revoltada com supersalários, mulher esfaqueia ACM Neto na rua”  Num jornal. É um inicio. Heroína, fez o que não temos coragem,  Faca sem chaira, sem queijo. Quicé. Mas teve efeito. Liminar de Lewandowski.  Eu. Imploro minha padroeira. Adianta? Eu imploro. Ó Gloriosa e Poderosa Rita de Cássia, santa das causas impossíveis, advogada dos desesperados, auxiliadora da última hora, refúgio da dor e desesperança, em vosso poder junto a Jesus do Sagrado Coração  tenho confiança, a vós recorro contra as forças do destino, não me abandones nesta hora, me livra da opressão dos grandes. Esperar. Interrogatórios. Frio, aqui. Estes gritos me enlouquecem. Que luz é esta na minha cara? E estes ruídos, de onde veem estes ruídos? Querem-me cega e surda.  Sede, quero beber.  Pão e água. Lá fora tinha circo. Que não deem telefones, nem pau de arara, basta o corredor polonês. Tu inda vai matar o menino? Gazela. Vagabunda, puta, negra sem vergonha, Macaca imunda. E pensar que muitos deles eram negros e negras.  Batiam como os capitães do mato. Se não fosse o traidor, a vitória não seria tão fácil. Deputados, tudo têem. Eu, nem o FGTS. Não tenho medo. Vão dizer que me suicidei. Juca suicidou-se?  E eu, quem vai me defender?  Só o futuro. O tempo é como água, lava tudo. Você acredita mesmo que me suicidei? Oh!, meu amigo, só você mesmo pra me visitar. Coragem, correndo perigo. Te devo esta visita.  É, também, parte do que sou a ti agradeço;  Nunca antes tinha pensado. Escravidão. Algo distante e uma boa princesa, acabando, de uma canetada. Ingenuidade, você disse. Não aguentavam mais sustentar a negraiada. Casa, roupa e comida. Melhor pagar,  a lei da mais valia. Paguemos nós o dia,  e que se dane casa,  roupa e comida. Treze de maio.  Vai vender teu dia,  sem teto, sem terra, sem roupa, sem comida. Mudou a forma, os escravos continuam.  Ah, meu amigo, não fosses tu, talvez não estivesse aqui. Não, não me lamento.  Ipiau, na festa  de São Roque. Você se lembra? Te vi, te olhei, quase chamando. Você veio,  estava indo embora. Sem roupas,  estavam sujas. Uma camisa de meu irmão e ficastes. Meu primeiro beijo,  quase roubado, fui eu que o roubei, ladra. Japumirim, no oitão de casa, amar,  amor. O meu primeiro. Sumistes, depois, tu não sabes quanto sofri.  Fui a Gandu te procurar, lembra?  Você prometia ir me ver. Sabia de ti, diziam, esteve aqui. Não veio me ver. A audiência terminou tarde, tinha de voltar. O Rio de Contas, nem te conto, meu choro ouvia, neste dia. Mais  Ligavas, mais sofria.  Eterno é o tempo. Olhos abertos para o mundo, te agradeço. Tupi das arábias, escrava na pilhagem do cristão. Banzo. No mar não ser jogada,  sorte minha,  por não comer, querer morrer, açoitada. Por o  patrão entrar em mim,  não reclamar, não abortar, nem matar  filho gerado, futuro escravo, não morrer da própria mão, rícino comida, água com peçonha  e roupas virulentas. Faziam os senhores. Escravos. Piedoso cristão, adoradores de paus cruzados. Trago-a em mim.  Amiga, perdão, amor, provo agora.  Mais que amizade, mais que amor. Amigos, onde estão? Assim eu sou. Não me leves muito a sério, nem mesmo  eu me levo.  Eterno é agora. Não foi ontem,  nem amanhã. Tempo não se conta. É. Ele é. Eu, sei e não te recrimino. Até tu falavas.  Elas, mais do que tu, te procuravam. Ione, você amou, quase morreu. Se te encontra em casa, que a levasse a  Itamari. Quem a levou encontrou com ela a morte. Torturados ele e ela.   Dinheiro sexo e poder. A trindade, sempre juntos. Papas renunciam, carnaval, vale a carne, dinheiro, carne, poder. Se ajustou na cadeira, plástica, incômoda, arranhada, carrara de pobre. Eu também, dura cadeira, duro cheiro. Alcatifas do vaticano, alfombras principescas,  baldaquinos reais. Cheiro. Sexo, velhice e mofo, urina, bosta e suor. Cupins talham  madeira.  Ventilador no teto,   mais barulho que vento. Moscas, vão nos devorar. Já, já tocarão a sineta, inda bem, ir-me, deixando-a sozinha,  retornar à cela. Olhar lascivo de uma detenta.  Ela diz estar com medo. Todas a cobiçam. Frequentes as brigas, qualquer motivo, sexo na dianteira.  Uma espanhola me pede cigarro. Não fumo. Está por tráfico, pede pra ver seu processo na justiça. Mula, usada, precisava viver. Trabalho de muitos, vida fácil de alguns. Inda bem, pena de morte aqui não tem. Coitado do Marco Archer, executado na Indonésia. Boi de piranha, como se diz aqui.

Ita sorri pra mim. Sorrio também pra ela. O mesmo sorriso de quando a vi, no Trio Elétrico Saborosa. Uma garrafa da famosa cachaça, tu te lembras? Sim. Saborosa Ita,  Sabrosa Ita,  Sabrita não era assim que  te chamavam? Sim, Marita, não era assim que te chamavam? Cúmplices. Todo cuidado é pouco.



Continuação no livro Noite em Paris, breve nas livrarias.