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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A MIRAGEM

A MIRAGEM







                                                                                                                                      

            Eu tinha cerca  de 12 anos. Na roça, onde morava, as moças  que eu via eram poucas, e somente quando ia à feira de Capela,  arraial à uma légua de nossa casa. 
            Eu me enfeitava todo no dia de sábado, dia de feira em Capela do Alto Alegre. Meu chapéu novo de couro, uma casaca e as alpercatas de cromo. Jogava um pouco de cheiro no corpo, roubado da mamãe. Olhos dançando, no caminho. Buscam Mariá, vindo do Tabuleiro. Ou do Bispador. Ouvia a cantiga de roda das noites de lua cheia. A rosa vermelha é meu bem-querer, a rosa vermelha e branca eu hei de amar até morrer. Veria o passo alegre de Quesinha? A Mente voava pr´Aroeira, onde nasci e via Helena caminhando pra escola.
            Um sábado, após haver ajudado a descarregar os burros, fui amarrar os animais e pedi a meu pai para dar uma volta.
D’outro lado da praça havia uma aglomeração, a mor parte, garotos como eu, em torno de uma limusine. Corri para lá. Um carro. Era nosso espetáculo.
            Dentro da limusine estava sentada, com muita graça, a nos olhar admirada, uma linda moça. Seus grandes olhos pareciam mato em tempo de chuva. Nossos olhos, capim queimado do sol, iam e vinham de uma ponta a outra do carro e se quedavam na moça,  cujos  cabelos eram espigas de milho nas noites de São João. O vento jogava-os de um lado para o outro e seus dedos tentando  acomodá-los, faziam lembrar a cobra -cipó. Ela toda nos recordava a graça de um pé de licuri. Pela primeira vez olhei mais para u’a mulher do que para um automóvel. Me vieram à memória todas as imagens das santas trazidas por aqueles frades barbudos numa missão havida meses atrás.
            - Parece a santa do padre da missão. Bem que pode ser a mesma. Quando crescer quero me casar com ela, disse.
Acharam ser pecado. Uma santa, não podia se casar.. Caçoaram de mim. Ter vergonha tive. Corri dali. Nos meus olhos, sua imagem. Me seguia..
            À noite, em casa, após ter ouvido meu pai contar o sucedido na feira - suas vendas, e o dinheiro apurado - fui deitar-me. Logo adormeci. A imagem da moça me veio em sonhos e me chamava pelo nome: “Dá, estou aqui”. Era uma voz macia como a lã dos cordeirinhos. Os borreguinhos da Boa Sorte, a fazenda do tio Pedro, Pedro da Boa Sorte. Parecia o arrulhar da juriti de papai Nézinho. Juriti lá na gaiola quer sair. Guardiã que é guardada, pia mansa apaixonada.
            O sol crestava mato e secava tanques. A miragem permanecia, fosse lua fosse sol.
            Quando o sol caminhava para o lado das serras eu sempre me entristecia  pois me lembrava dela. Era a hora de apartar o gado e ouvir o aboio de seu Ricardo levando-os para curral. Cuidava da criação, cabras e ovelhas, eu com meus irmãos. E quando as nambus começavam a cantar à boquinha da noite, íamos reunir os animais.
            Nessa tarde, tinha-se perdido uma ovelha amojada. Buscara-a entre mato, gravatá e cassutinga. Nem berro de mãe parida, nem balido de borrego ouvia-se pela catinga. Perdido em qualquer galho, estaria seu chocalho ou caído seu badalo. Cansado de procurar, sentei na cerca. Cerca de travesseiro, boa pr´atravessar, boa para sentar e até para deitar. O gado vinha tangido para o curral pelo vaqueiro Ricardo. Vortaçucena. Tu é doida, vaca danenta. Azuzinha, ei, ei, ei. Iáaa. Láá. Saí daí, queli, cachorro embirrento.
            Longe, na estrada, o tilintar da mula-rainha da tropa do primo Zezinho. Trotava com seus burros. Chegar é preciso, antes de escurecer. Na estrada pra Capela, não é bom passar no escuro no tanque de Rosalina. Mal-assombrado, diziam, com alma de Joaquim Machado.
            Siriema cantou no longe. Um bando de papagaios passou gritando, cou, cou, cou. Iam para os ocos dos paus, onde fazem seus ninhos. A zabelê cantou o canto que lhe deu Tupã e me lembrei da cantiga de roda. Minha  sabiá, minha Zabelê, toda meia-noite,  eu sonho com você. Um gavião passou perseguindo uma fogo-pagô. Ah, um bem-te-vi por aqui. Pitanguassu, pitangussu, ond´tá tu, ond´tá tu. Atirei meu chapéu-de-couro. O anajé pega-pinto perdeu o pino. Fogo-pagô voou, voou, se abrigar  longe na quixabeira. Fiquei contente de salvar a rolinha, embora tenha  matado muitas, de badogue, e comido, assadas num espeto.
            Um jumento, mato a dentro, zurrou alardeando potência e resignação. Ali podia estar a ovelha desgarrada. Talvez estivesse parida e aquele gavião fosse comer o borrego. Ou talvez um  outro carcará qualquer, já o tivesse feito antes dele Não basta a sede por que passam já ao nascer, correm também o risco de serem comidos por aqueles pássaro, de bicos sanguinários. Um carcará só devia de comer milho e frutas como os outros pássaros. Porque só ele deveria comer carne? Será que ele era um passarinho de mentira? Só tinha pena para enganar os outros?
            Do tanque vinha a voz de minha mãe. Na cabeça uma cabaça, água de beber, camará. De licuri, cacho na mão. Debaixo da pedra licuri. Licuri coco miúdo. Dizia ela uma chula. Daquelas que se cantava na raspa da mandioca na casa de farinha.
            Xô, Xuá
           Cada macaco
           No seu galho...
          Gostava de ouvir mamãe cantar. Mais um gemido. E não um canto. Sentia saudades. Do nada. Não traziam alegria os cantos lá do sertão. Se arrastavam com dolência e angústia.  Seca secando o gado, cobras mordendo gente, assombrações correndo a noite, caipora perdendo o povo,  lobisomem virando homem,  mula do padre trotando, cangaceiros perambulando e jagunços atirando, festas dos Santos Reis, São João do Carneirinho,  bois, batuques e batas, batas de milho e feijão, cantigas de roda na noite, nas noites de lua cheia, chula, xaxado e baião tudo isto é o sertão, triste, terrível torrão.
          Uma voz, longe na malhada. A moça do carro de Capela. Em pé, de pernas altas,  parecia eu, um anão. Trazia na mão uma varinha. Igual a nossa de tanger gado.
          - Eu estou aqui, disse.
          Desci da cerca. Com medo, surpreso e assombrado. Sua voz desta vez soara como o balido de um cordeiro. Anho de Deus. Hesitei um pouco no pé da sebe. Seus  olhos se confundiam com o capinzal.
          - Vem, eu sou tua amiga, me disse.
          Tomei coragem e corri pra ela, tropeçando em pedras, tocos e arbustos. Mais corria, mais distante ficava ela de mim. Seus cabelos se misturavam com as nuvens doiradas pelo sol crepuscular. Suas vestes eram brancas. Pendiam-lhes listas amarelas. Não pareciam de tecido. Talvez algum metal a refletir os últimos raios do sol poente. Derramou-se uma luz por toda  malhada. Espargia-se uma intensa fragrância de jasmim silvestre, a flor que eu mais gostava e porque chovia suas flores embranqueciam o mato, iãsemin que embriaga as noites do sertão. Ela ia se afastando como se estivesse alguém puxando-a para cima e para trás.  Eu corria. Não me pesava o corpo. Seus olhos, o meu guia. Sorriam para mim. U’a música, que até então pensara ser apenas um ruído, aumentou e escutei sons nunca dantes ouvistos. Vozes se mesclavam numa orquestração indecifrável. Surgiam luzes e pariam cores e sons, circundando meu corpo, meus ouvidos. Não diziam chulas nem batuques. Nem tambores, nem pandeiros. Era um cantar de palavras. Indecifráveis. U’a música disforme das toadas do sertão. As vozes se misturavam e me vinham como um chamado. Eram sons como faziam os órgãos e os violinos. Às vezes parecia ouvir o doce toque do boré. Fiquei com medo e quis parar. Já não conseguia, entretanto, estancar, por mor de uma força que sentia me conduzir em direção àquela moça. Ela mansa e meigamente se afastava.
          - Não tenhas medo - Sua voz pairava sobre tudo. Era um canto e seu canto o mais belo. Já não mais sabia onde estava. Meus pés começaram a desprender-se do chão pedregoso. Gritei.
          - Papai, mamãe, estão me roubando.
          Grito perdido no espaço de sons, cores e luzes, vindos  como a me embalar.  Ela me sorria de  seus olhos verdes e me enviava beijos. Tanto espanto, não percebi um carro se aproximando por dentre as nuvens. O mesmo carro da feira em Capela. Azul e não preto como antes. Sem fumo, nem bulha, deslizava por entre as nuvens, puxado por dois cavalos brancos. Ela convidou-me a entrar no carro e tive ainda maior medo. Gritava para que me deixasse ir embora. Não queria ir com ela. Gostava muito dela, mas tinha medo. Não sabia para onde estava me levando.
          - Vou te levar para um lugar muito lindo, onde não há secas, nem fome, nem assombrações,  nem jagunços.  Disse - onde tudo é paz, música, festa e cores.
          - É para o céu? - perguntei - eu ainda não morri. Me deixe ficar, não quero ir. Eu estou com medo.
          -  Para um lugar melhor que o céu, porque não é preciso morrer para se ir para lá. Vês? eu não estou morta.
          Me fez tocar seu braço. Era cálido. A boca do forno da casa de farinha. E suave como as plumas dos pintainhos. Eu tinha medo e saudade dos de lá de casa. Com certeza já tinham sentido a minha falta e estavam me procurando. Além disso, seria muita ruindade minha ir-me embora para um lugar tão bom e deixá-los sós na roça passando toda espécie de necessidade, como quando passamos um ano bebendo água salobra da cacimba, porque não chovia, ou quando tinha de pisar o milho, fazer cuscuz e comer com feijão.
           - Eu quero voltar para minha casa - dizia desesperado, embora já tivesse compreendido que a moça não me queria fazer mal algum. Quase como um desabafo, quase com um gesto de impaciência sua voz, seu corpo disse:
          - Olha bem, senti naquele dia que gostavas de mim e vim te buscar. Vou te deixar, porém, porque não estás preparado para viver entre minha gente, mas virei um dia te buscar. Prepara-te então. Ama-me, que esta é a melhor maneira de te preparar para mim.
Senti meu corpo. Desprendia-se daquele carro. Imagem, som, luzes e cores  iam-se afastando. Seu sorriso ia tomando conta de mim. Um sentimento de perda ia-se apoderando de mim. Eu ia descendo e me afastando dela. Sua voz dizia - adeus, adeus, até a volta - como uma canção de ninar. Meus pés tocaram o chão. Quedo, mudo e surdo fiquei. Tudo desaparecera. Era tudo lusco-fusco. Eu ouvi o balido de um cordeirinho. E vi, em frente a mim, a ovelha que tanto procurara e o borreguinho buscando ávido o peito da mãe.
          Eu toquei a ovelha e seu filhinho para o curral. A lua alumiava a boca da noite. Uma acauã gemeu seu canto e eu apressei o passo.




Continuação no livro Noite em Paris, breve nas livrarias.

domingo, 19 de setembro de 2010

INCINERAÇÃO DE PROCESSOS FINDOS


Os Tribunais deste país  determinaram a incineração dos processos findos. Uma babárie contra nossa História. A quem interessa isto?
 
Adeus poesia.
Adeus vida.

Por que não doar estes processos aos diversos museus e bibliotecas do país?
VAMOS IMPEDIR ISTO.

sábado, 26 de junho de 2010

O BANCO, O CHÃO, O SONO E O SONHO








Meio-dia. Ôh sole quente. Buracos na estrada.  Enfim, cheguei. Mairi, Monte Alegre da Bahia. Cinquenta léguas de Salvador, por Capim Grosso ou Baixa Grande, por onde foi. Verás, verão. Intranquilo desce, tranquila cidade. Curiosos observam.  Abram as jinelas, belas donzelas, estou chegando.
Meia-noite. Gare du Nord. Chegara afinal. Retirar mala, berimbau, pandeiro, violão e bugingangas. Brigitte, seu  papagaio não veio. Complicações na duana. Frio d´outono no seu rosto, folhas sob os pés, caídas.. Noite em Paris, primeira. Saudades. Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá.
Achou a casa do tio. A benção, Deus te abençoe, abraços, beijos. Como está comadre? Compadre tá bem? Procurar Costinha, amigo do pai.  Costinha Jururu, (gostava do apelido, ele mesmo se apelicou, preito ao jurubeba, vinho predileto). A carta do pai. Que o apresentasse  à cidade. Orgulho de ter sido o escolhdo.  Estão vendo?  A quem seu pai recomendou?  A Costinha, como Pelé fala na terceira pessoa,  não  aos bacanas  daqui.  Jururu não tem onde cair morto, mas tem amigo na capital. A todos mostrava o escrito. Com prazer e denodo pegava-o pelo braço, apresentando-o  a um e outro. Filho da  terra, de nossa  gente, da gema, dos primeiros habitantes. Sobrinho-neto do Coronel Francelino de Almeida, homem rico, morreu pobre, pedindo esmolas, por não roubar, ao contrário de muita gente boa  nascida pobre e hoje rica, sabe Deus como. Constrangedor discurso, fazer o quê?   Jeito todo seu.
Gare  du Nord.  Saint-Lazare?   Busca de hotel. Luzes na noite,  frio gélido  na  cara. Na minha cara?  Luso andar  em terras de  Luízes. Andar brasileiro na terra dos francos. Olhar moreno na blondice franca. Fumacê nos bares e cafés. Cachimbos,  cigarros, charutos, talvez diamba. O amargo da cerveja na garganta. Na telê, perdido na bruma,  montado em cavalo branco, esganando-se por  suplantar o burburinho, Adamo?, Becaud? Quem canta assim, danadamente?
E o soldado Paulo Cobra, que não é Norato, mas cutibóia, como o cipó,  (Era Koba mesmo. Não, não  me chamem de estalinista, Jaldo Caribé, hoje no reino da paz, - prefiro o inferno daqui -, me fez este alerta), arranjou-lhe a primeira questão: Um desquite, (ainda não existia divórcio). O casamento válido só se dissolve pela morte de um dos cônjuges, dizia a lei;  Não separe o homem o que Deus uniu,  berra a Igreja execrando  o divórcio. Criado o casamento,  arengava, opondo-se ao decreto 181  de  janeiro 24 de 1890: só Deus pode unir o homem à mulher.  Rui Barbosa vangloria-se de ter divergido do mestre D. Macedo Costa: Porque não era aturdindo as consciências com o  estrépito de improvisos violentos que havíamos de estabelecer a liberdade  religiosa:  - era pelo contrário, inquietando o menos possível as almas, e  poupando a liberdade de cultos que desejávamos firmar na máxima plenitude  e com a maior solidez, ahostilidade das tradições crentes, em um país  educado pelo cristianismo e pela superstição. Temperança,  equilibrio de Ruy;  imposição,  autoritarismo eclesial, no Império e na República, não permite o casamento religioso sem o civil. Sem direito de escolha, proibir dupla núpcias.  Religião, religião.
Com zelo e dengo um  casal criava sua única filha. Escolheu, escolheu caiu num  jovem vistoso, elegante, um pouco bandavoou mas, casou-se. Trinta dias depois, volta, chorosa e arrependida à casa dos pais. Ainda estou virgem mamãe, ainda sou moça papai. O velho pegou do revolver, da peixeira e do facão, foi encontrar o genro. Seu vagabundo, seu xibungo descarado. Que houve meu querido sogro? Você ainda me pergunta o que houve, com esta cara sem vergonha? Então você casa com minha filha e depois de um mês ela continua virgem? Hehehe, ahahahaha. Agora entendi. Como foi que eu casei com sua filha? Você casou no religioso e no  civil,  seu moleque. Pois é, meu querido sogro,  estou primeiro no religioso. Ai, meu deus, gritou o sogro, que minha velha está me devendo mais de trinta anos de cu. Hoje, depois de ter reencontrado o oficial Mauro Gelado,  no fórum em Mairi, moreno como o nome,  frio como uma talha, razão da alcunha,  tenho cá minhas dúvidas. Quem realmente o apresentou ao primeiro cliente?  Mauro, que não é Terenciano, nem poeta, nem gramático,  e única coisa que escrevia eram certidões nos mandados, sim, lhe trouxe o desquite  de João Calixto, um velho senhor casado com mulher mais jovem, que o traía, contam, com um motorista. Ficava mais na fazenda, deixando-a na rua pela educação dos filhos. Vinha à cidade trazer  leite e mantimentos ou quando lhe subia o fogo, normalmente baixo, pela calmaria própria da idade, pois apesar da fanfarronice de alguns idosos, que dá uma toda noite na sua velha, todos saem que aquilo mente como um cachorro doente. Posto que a bicha fica enzamboada, nem sobe, nem desce de vez, fica numa espécie de limbo, em estado indefinido, nem sólido, nem líquido, nem gasozo. Um dia, de supetão, pelos fundos da casa, deu de cara com o amante.  Correu a espingarda, sem tempo de atirar.  Sedutor, espavorido, fugindo, (seduzido?),  chinelos, chapéu  deixados, o crime deixa rastro. Desquite litigioso, queria, desmascarada, ver a traidora. Como se todos não soubessem. O marido, sim, o derradeiro a saber. Poderia cantar a canção:            
 Mas agora eu sei
O que aconteceu
Quem sabe menos das coisas
Sabe muito mais que eu 
Traição  de estapafúrdias soluções. Portugal, 1715, Dom José assina lei. Ajudar maridos traídos descobrirem sua cornice. Quem soubesse de uma traição deveria denunciar o chifrador, colocando  chifres  em sua porta. Oferenda ao chifrudo? O coito em cama alheia  sempre foi, em qualquer tempo e lugar, crime gravíssimo, quase sempre punido com a morte, a mulher, claro,  porque na maioria das vezes o sedutor  nada sofria. A bela Costanza, não muito constante a Bonarelli, o maridão, amou Bernini e seu irmão Luigi, pérfida in bis,  e foi desfigurada a navalhada, a mando do escultor, sob o beneplácito de Matteo Barberini, ou Papa Urbano VIII, de cuja amizade um tanto quanto suspeita, gozava o artista. (será que eram amantes? Papas existiram de todo tipo, até mulher vestida de homem. Traveco, o Ronaldinho iria adorar.). Divino artista, homem demônio. O que não faz um cara  por uma chiranha!
No século XI, a infiel  era  assassinada  na praça, perante uma multidão ávida de sangue e vingança, como inda hoje se vê entre alguns  islâmicos. Tanto rigor não corrigiu o humano. Será mesmo o coito extraconjugal mais gostoso do que o papai e mamãe de cada dia? Esquimós e índios das américas mais sábios e felizes, sem saber o que é cornice,  até ofereciam suas mulheres como prova de boa hospitalidade. Fazem sua praxis o ditado, lavou tá nova. Mundo doido. Imundo. Louco mundo. Em  Hong Kong, a mulher traída pode matar seu marido desde que, com as próprias mãos, missão quase impossível, quando se pode matar de qualquer forma a amante do marido. Que discriminação!
Na Cité Universitaire. 7 L, Boulevard Jourdan, La Maison du Brésil de Lucio Costa e Corbusier .A carta do português ao amigo Quertezer (pronuncie Quertezer, oxítona. Aprenda. Na língua lusa as palavras terminadas em i (y), l, r, u e z, se não houver acento antes, são sempre oxítonas, esqueçamos esta palhaçada de imitar a pronúncia anglo-americana):  Leva ele muita coisa na cabeça e mais no coração. Merece sua ajuda.  Tira das vistas o papel, diz ao retirante. Paris não é  lugar pra gente sem dinheiro. Volte logo, se não quiser morrer de fome, aqui não é o  Brasil, sentenciou. Mal sabia que 4 anos depois, em pleno Maio de 68,  ali retornaria, desta vez  para ocupar e expulsar daquela Casa  os estudantes bolsistas,  filhinhos de papai e afilhados de políticos. Sem o menor conhecimento do sistema de operação telefônica, tomou posse da portaria. Tudo tão confuso, como a própria revolução de jovens que não sabiam o que queriam, sabendo apenas o que não queriam. A sociedade burguesa que dominava França e Europa.
KaRa de fome e sorriso nos olhos de seu povo. E língua esfarrapada em seu ouvido. A voz do sertão. Como o canto do assum-preto, negro como os cabelos d´Iracema, a virgem dos lábios de mel. O sábado menino.  Comprar rapadura, dois´tões. Sacos. Sacos de farinha, punhado apanhado, misturar na boca. Ô m´nin, danado. O olhar curioso dos roçeiros. Seu traje, seu trato. Uns veem o filho da terra, outro a lembrar-lhe  parentesco, mesmo por trás da serra. Que buscas tu, neste desertão? Voz partida, perdida a cara.
No cartório de Aloisio Leal, (que não se mostrará tão leal quanto o nome diz, tu verás), o dialogo da iniciação nas coisas da justiça. A sarará grita, esperneia, arrasa.
-  Padinho, o sinhô num pode impedir  que eu receba o que é meu. Num sou mais u´a criança. O sinhô só me tem prejudicado o tempo todo. Quero tomar conta do  meu. O escrivão rebate:
 - Sujeitinha mal agradecida. Devia lembrar-se do quanto eu fiz por você.
A sarará. Mulher. Mulher-mulher.
- Sujeitinha?  E o sinhô?  Um ladrão. Covarde. Correu da polícia  federal. Comunista, cagão.  Se ajoelhou  nos pés do capitão. Chorão. O inventaro  é meu, a terra é minha. Só quero o que é meu. O sinhô num pode ficar com a terra toda vida, só porque inventou de ser ventariante. 


Continuação no livro Noite em Paris, breve nas livrarias.              

(Publicado sob o pseudonimo de El Carmo na Coletânea PALAVRA POR PALAVRA, Ed. Art-CONTEMP, Salvador, 1992) 

sábado, 29 de maio de 2010

E TU SILENCIOSA, APENAS RIAS













Porque sou feio tu nem sabes que existo. Porque sou tão pequeno, tu nem me vês, quando te olho. Existo Cristina. Desde o dia em que te vi na capa daquela revista. És alegre, e, no entanto, tens os olhos sensualmente tristes.
Segui teus passos apreensivamente e vi-te deitada sobre o feno. Tu não te lembras. Corrias vaporosa, talvez, os lugares chic do mundo, quando te tomei pelo braço e te trouxe a meu quarto. Pus u’a música, deliciosamente sensual, na vitrola, perfumei-me com essência de jasmim e corri para teus braços. Tinhas uma camisola branca com rendinhas amarelas. Olhavas para o teto, pensativa, com a mão direita sob a nuca. Com a esquerda, guarnecias a camisola, talvez por resquícios de pudor. E fiquei minutos em pé a te olhar. Teus cabelos negros. Teus olhos castanhos. Tua boca sempre entreaberta. Eu me lembro. A camisola jazia entre tuas pernas, formando um lindo triângulo. Pairava um cheiro de flores silvestres. Tu não dizias palavra. Parecias estar gostando. Parecias não estar gostando.
Nu. Eu te olhava. A mão começou a acariciar-me. A esquerda. A direita. Tocava meu rosto. Meu peito. Meu umbigo. Descia por minhas pernas. As unhas faziam cócegas gostosas e engraçadas. Os dedos se enfiavam docemente entre os pelos. Meus olhos se enchiam d’água. Minha boca ressecava. Meus gemidos não te assustavam. Mas eu me recordo. Eram estranhos. Dolorosos. Solitários.
Às vezes, tu viravas o rosto tristemente e paravas meu movimento. Punhas a cabeça sobre o braço e quedavas pensativa. Descobri um angulo agudo nos teus braços, por onde tu mostravas os teus seios de pontas vermelhas e eriçadas.
Eu recomeçava o jogo. Tinha passado um creme nas mãos para ficarem mais macias. Agora me sentia melhor. Te disse que gostaria de ser bailarino, porque acho que um bailarino sabe mais fazer amor. Te prometi fazer um poema inspirado em ti. Talvez tenhas esquecido ou nem saibas disto, mas demoramos mais de duas horas no jogo do amor.
Tu me prometeste um postal de Roma. Tu me pedias para falar. Falar. Falar. Porque gostavas de ouvir meu falar brasileiro. Eu achava sensual teu falar italiano.
Eu te coloquei entre minhas pernas e tu gritastes, que estava te amassando. Tinha esquecido a tua fragilidade. Que ânsia. Já eram três horas da manhã e eu não estava cansado, apesar de ter acabado de chegar de longa viagem de ônibus. E pensar que no dia seguinte teria de fazer uma prova às oito na faculdade!
Eu te expliquei que vivo uma vida atribulada, morando no interior e estudando na Capital. Além do mais, tenho meus problemas financeiros, pois inda este mês, tive dois títulos protestados pelo banco, por falta de pagamento. Que sou bom profissional, porém, ainda não tenho o reconhecimento público, e que nesta profissão, está mais em jogo os interesses políticos e econômicos do que mesmo a capacidade profissional do indivíduo. E que se fosse um cara bonito, alto, brincalhão, irresponsável e burro, teria maior sucesso do que sendo um cara cerebral. E por este e outros problemas, o jogo do amor comigo era extremamente demorado. Outras vezes, mal começava, eu chegava ao orgasmo. Sem graça. Insosso e egoísta.
Contigo talvez tenha sido inibição. É um sonho louco ter-te em meus braços, na minha cama, quando sei que todos os homens do mundo te desejam. Tu não te recordas, mas foi preciso repetir o disco várias vezes. Ouvia-se ao longe o latido de cães e a zoada dos autos na avenida. Eu não sabia mais se os latidos ali eram do Animals Dogs de Pink Floyd ou de cães perambulando na madrugada. How I wish how I wish you were here. Chorava a guitarra, cortando minha carne, rasgando minh´alma, chorava eu. Cansado estava. A mão direita não mais suportava movimento algum. Estava disperso. Acendia a luz. Apagava a luz. Olhava tua imagem. Concentrava. Em ti. Me lembrava de cenas vistas na infância, algumas das quais eu participara ativamente. Um casal de cachorros. Uma jumenta. Gatos miando no telhado. Os gritos lancinantes de uma porca. O dia em que peguei Terezinha debaixo de um pé de quixaba.
Não conseguia. Estava molhado de suor. E ia desistir. Me olhavas tão meigamente triste. Lembras-te? Amarrotei teus lábios, teu pescoço, teus seios, teu corpo. Um frêmito perpassou-me todo o corpo. Como uma navalha. Veio do mais dentro de mim um líquido. Cortante. Inundando nossos corpos. Lacerando nossa carne. O perfume do amor invadiu o quarto e a música. Gritei um grito de prazer e dor.
E tu silenciosa apenas rias.
E tu silenciosa apenas rias.
O riso moreno de teus olhos castanhos.
O sorriso. O mistério da madonna
Me vi.
Só.
As mãos. Meu corpo. Teu corpo. Umedecidos.
Enxuguei-me com tua roupa. Tu te lembras? Fui ao banheiro e joguei tuas roupas na cesta de lixo.
Tu te lembras?


Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

NOITE EM PARIS












Fazia um friozinho e chuviscava. Ele parara em frente ao Eléphant Blanc. Esperar. Logo estiará. Eram, talvez, duas horas, ou menos. Outras pessoas, também, ali. Esperavam, silenciosas, a chuva passar. Um homem baixo,  careca luzidia,  roupas modestas, parou em sua frente e de costas, coçando seus perigalhos, comentou sobre o tempo. Eterno tema das conversas dos que nada têm a dizer. Tempo, Tempo. Eró, Eró. Tempo, Tempo.  Não me comas, não me devores, meu pai. Eu quero viver. “Oh quero viver, beber perfumes na flor silvestre que embalsama os ares”.  Eternidade, te quero.  Mecânico, respondera-lhe.  Convicto, papo assim,  não inicia amizades,  e, só isto  lhe interessava, difícil fazer amigos na França,  mais ainda,  conservá-los. Como ser amigo de um clochard? De quem não tem  morada, não saber onde procurá-la nos momentos difíceis? Não. Não era um mendicante. Flanava, apenas, flanava. E se fosse, iria precisar de um cloche? Si. No. Não lhe interessavam porandubas, nem pabulices, mas batera um papo.  Incomum, alguém para papear. Sua vida transcorria em monólogos. Sem sons. Para que abrir a boca? Não havia ouvidos. Aquele homem percebera o estrangeiro. Talvez, também ele, um meteco em sua terra. Não, não era um árabe. Mourisco das tabas tupis, alóbrogo desdentado. Il n´etait pas un pied-noir. Non, il n´etait pas un mexicain, non plus. Il s´agit d´un brésilien. Le Brésil. Le carnaval de Rio. Disse ser do Sul e entender  um pouco de português porque falava um pouco do provençal, la langue d´oc. Orgulho nos olhos ridentes. Alguma semelhança entre o português e o provençal? Existe ainda,  falantes desta língua? Dela sabia apenas que tal qual o francês o u se pronuncia abrindo-se a boca para dizer ‘u’ e ao contrário dizer ‘i’, saindo um som semelhante ao ‘ü’ alemão. Acabava de aprender que bouche se diz boca como em português, une boca; Que nuit se escreve nuet, noite, e se pronuncia nué; dia não é jour mas jorn e se pronuncia dzur, pois o j e g se pronunciam dz; Ch se diz ts; Paraxítonas las palabras finitas em un, a, e, o, as, es, os. Saberá que Frederico Mistral, escrevendo em provençau, tornou respeitada a língua occitana. Dias virão em que lerá o Miréio: "Cante uno chato de Prouvènço./Dins lis amour de sa jouvènço". "Canto uma jovem da Provença. E seu amor de juventude". E lerá um dia a súplica dirigida ao rei René em 1474: Très soveyran et tres haut prince, A la vostra sacrada real majestat, humilment et devota si expausa..."
Uma rajada de vento e água. O velho recuou tocando-lhe. No sexo. Entendeu tudo. Não era isto que estava procurando. Tinha estado em alguns bares, mas não fora posto em almoeda. Não estava em almunada. D´Alliance Française, no Boulevard Raspail, onde estudava e lavava pratos, fora ao Trait-d´Union, na Rua de Rennes. Sorveu o primeiro trago. Traçar  destino  para a noite. Daniel,  coxo, cochon não, dançava a bandeja em suas mãos, gritando comandas, pedindo  contas, agradecendo  gorjetas. Estivera na Buate Grise. Ouvir cantar Pernambuco. Passara n´A Feijoada, Quai de l´Hotel de Ville, onde fora mirmidão e escanção, por vezes. Dar um abraço em Normando, rir das piadas de Claude e das reclamações de Madame Faure, implicando com ele, Claude. Pardon madame, pardon, dizia o garçon saído dos Halles, amantapaixonado  pela bela. Cantar a bossa nova que Normando lhe ensinara a tocar, nas folgas de segundas, d´A feijoada.  Ensaiara cantar: "Guarda a rosa que te dei, esquece os males que te fiz. Timidez?. O pianista, da Martinica negro, reclamava sempre. Fora de ritmo. Falta de ritmo é timidez, ou um  problema de respiração? Não seria justamente a música capaz de curar a timidez?  Bela voz, ritmo atropelado. Tinha a compreensão e o carinho de Pernambuco. Bebera, bebera e bebera. Não lhe olhavam as loiras nem as morenas. Em vão. Tímido para a abordagem. Sozinho mais difícil a conquista. Não era um pédé. Não. Ele não dissera isto. Queria apenas sucer sa bite. Não. Aqui na rua, descaradamente assim? Qu´il n´y avait personne. Tous sont rentrés. L´Elephant Blanc fazia congé, nesta noite. Seus fregueses foram beber em outra freguesia o grogue reconfortador. Não, definitivamente, não. Iria voltar a seu quarto. Seu runcó. Subiria os sete vãos de escada do 16 rue d´Assas. Dormindo estaria Madame Zurflux e seu fiel kiki. Dormindo estaria Mademoiselle Zurflux. E Concepción, a solícita ménagère. La concierge botaria os olhos para ver quem estava entrando. Nunca dormem as concierges. Poria um disco na vitrola. Aquela que lhe presenteara a namorada, dedicada esposa do italiano. Lembraria o dia em que a conhecera ao comprar-lhe amendoim na avenida Saint Michel. Est-ce-que vous jouez de la guitarre? Por acaso tocava, sim, violão. Claro, dar-lhe-ia aulas de violão. Talvez não tocasse tão bem, não fosse capaz de tocar-lhe o Concerto de Aranjuez. Ou igualar Turíbio Santos num Estudo de Villa-Lobos. São Turibio, não o de Mongrovejo, apóstolo do Peru. O do violão, admirado e louvado em todo mundo. E que dizer de Baden Powell, o mágico do pinho? Baianinho, bota aí uma dose daquelas. Preparar a garganta pr´aquela feijoada caprichada. Saberia, planger as primeiras notas.  Só as primeiras notas. Um ré menor, um lá menor, um mi menor. Os tons menores são mais românticos e mais tristes. Os tons dos apaixonados. A música de quem tem dor de cotovelo.
Sim, subiria ao seu quarto. A camarinha como dizia Nanã. Lembraria o verde mar bravio de sua terra, azulverdelaranja, ai, sonho imberbe do noviço, recém-saído do Vieira, colégio dos jesuítas, revindo de Itambé, ninho vocacionista, onde fora jogado pela Ordo Fratrum Minorum Cappucinorum da Província da Piedade da Bahia. Volto para ti doce  amour de ma jouvènço. Oxalá, esteja eu vivo após esta travessia, Inch-alah. Lembraria teus cabelos cor de oiro, o sorriso qu´eu queria conquistar à ponta de espada. Ai. Lembraria o dia do não no Duque,  na garganta preso o choro,  mãos frias e corpo em transe,  mundo  em giro e voz caindo,  vertigem, surdez e raiva, amor ferido  e  orgulho, caminhando rua afora, rua aqui rua acolá, aula de latim perdida, ruas estreitas e negras faces, na multidão escassos passos, cores pardas, cinzas, negras. Nem voz, nem som, nem sinos de igreja. Mar revolto, águas de março, Ab7.  Teu fantasma. Pisa m´ia sombra, toma meu pulso, meu coração assalta. Ai Mar, tão longe e tão presente, ai, doce mar, quem te acalma, doce mar de minha terra natal, mãe e pai de todos nós, aplaca tua ira, águas de março, Bb7/E.  Ai, primeiro grito de amor, vence as barreiras do som, diz a ela que de longe, pode morrer a voz, pero não o sentimento, que veio sem ser pedido, mas aqui vai transmitido, como cantigas de amigo de um trovador solitário. Conta-lhe d´estranhas terras,  andanças, desencantos e encantamento, fome, fadiga e frio. Das noites de bar em bar, procurando sem achar, um cálice de vinho amigo. Conta-lhe esta odisséia, como Enéias contou a Dido. Ai marvada não  me devores. Posso contar tua história.
No seu quarto, tomaria um copo de Porto. Esquentar o frio. Deitar-se-ia ouvindo tranquilamente Mozart. O Divertimento em ré maior, K334, do poeta que em l779, na velha Salisburgo, num rasgo de inspiração, compôs para o deleite da posteridade. Era cedo. Ainda não passara o leiteiro. Dormiria um pouco e voltaria à rua. Buscar sua cota de leite na mercearia. Não. Não era um clope. Não era um ladrão. Hermes, o Trimegisto, sabe disso, mas  há de protegê-lo. Fazia sua redistribuição da riqueza. Não como Robin Hood, porque não havia Ricardo, nem coração de leão, nem selva para salvá-lo, e sim para perdê-lo de miríades corações de pedra. Os franceses entregam o leite nas padarias e mercearias na madrugada. Como nas residências, deixavam os pacotes empilhados em frente à porta. Pegava sua parte todas as noites. Era preciso comer. E comer exige luta. A arma do fraco é o ardil, senão morre. Toda arma é lídima, se prá salvar a vida. Deixar passar aquele casal de namorados, levém um clochard, atrás mais outro, mais outros, como cáfila, andam. Em seu quarto lhe esperavam a baguete e a manteiga, esta, surripiada no marché à cotê. Não tremer como lhe dizia o amigo Luiz. Se tremer o francês vê, como quase viu no dia em que roubaram chocolate no mercado. Ou no dia em que te pegaram roubando um livro de Pierre George. A mão do segurança sobre teu ombro. Não. Não tinha esquecido nada. A prova do furto. O livro sob o capote. O caminho para delegacia. O caminho para seu quarto. Os gritos dos policiais. Inda bem que não viram a navalha, arma da capoeira, camuflada n´algibeira. O aljube seria certo, oh meu Deus,  Deus meu, me valha. Polícia, igual em todo mundo. Como bem disse Maradona, (não se leia marafona),  imbecis há em toda parte. Não mataram Sacco e Vanzetti? A deportação, que medo.  A Volta,  vergonha, vencido. Por-lhe-iam num barco de terceira. A viagem, a náusea e a chegada. O vômito voando sobre si, caindo no mar profundo, pede vênia velha senhora. Me desculpe, lhe desculpa. Vomitar também vomita sobre o  azulmarchando canal. Dom Quixote não mancha, de la Mancha. Que perguntas que tu lhe  fazes? Que perguntas tu lhe fazes, Paris?  Luzes suas, saudade. O bulício de seus bares.  Aprendiz, sofrido, males.   Vinho, fumo, e  cer. Veja. Lembranças d´ Aroeira.  Chico de Anjo, do Paraná, chegando. Desce mais uma,  João. Tome-lhe cerveja quente. Geladeira, coisa rara no sertão sem energia. Gritam, assustadas, mulheres desacostumadas. Virge, marguenta  bicha, virge, até mijo parece, crendeuspadre. Un demi. Un panaché. Dizem  os franceses  saboreando-a sem parar. As discussões. Cinema, teatro e literatura. E política e política e política. Daria tempo de avisar a Chantal? Dar(get)-lhe-ia o violão,  o berimbau. Um regalo. Devolveria a radiola a Louise. Que brigasse o italiano bigodudo quarantene. De bigode entendia desde os tempos do Vieira. Bigodinho, professor de matemática, não assustava ninguém. Só padre Hugo, com suas equações, infligia terror à turma apavorada. A máquina de escrever, deixaria para Novelli, se Alberto Sergio não a tivesse comprado. Que deixasse os pincéis por um momento. Escrever um poema. Os livros de política para o Ortega. Fazer, com seus camaradas sandinistas a revolução na sua Nicarágua, derrubando o ditador Somoza e sua Guarda Nacional. Não esquecer. Poesia e teatro para  David,  neozelandês que não é maori, galego de zói azul, despido de tatuagens. Perdoá-lhe-ia por não lhe ter apresentado a petite allemande? Quanto infantil fora ele, quando juntos comeram moules, em Fontainebleau foram parar, ainda moles do vinho, quando simplesmente poderia, parar na cama com ela. La petite allemande. De vero não sabia, que a ela se referia David. Perdoar-lhe-ia por isso? Também ele nada fizera. Ficou na garganta o desejo. Dupla timidez ou tripla. Nem ele, nem ela, nem eu.  Tamáriki, āe, tamáriki. Crianças, apenas crianças, soa o maori da Polinésia. De cinema, os livros para Iushiro. O zapon agradece. Arigatô. Saudades de Ikuko na libertária Amsterdão, das tulipas, das papoulas, de Bento Espinosa. Quem te disse que não te quero hana flor d´Oriente? Tu, meu hanami querido. Sinto não te ter tido em meus braços, escondida na tua timidez. O tempo, comedor de gente, passa e com mil línguas, qual medusa,  nos arrasta, garganta sua profunda, em caminho sem saída, sem volta, sem retorno. Viver é agora, dizia sem convencer nem a si mesmo. Quando iria rever amigos deixados lá? Seu berimbau? Talvez o único existente em toda Paris. Quanto deve a seu berimbau. O toque n´A feijoada de Madame Faure e o toque em Brigitte. Brigitte Bardot, Bardot. Brigitte beijou, beijou. Lá dentro do cinema todo mundo se afobou. Seus passos,  trejeitos dança amizade. Quer dançar comigo? Ensina-me dançar o samba, ouvi de sua voz. Je veux samba, Je veux samba, oui,oui,oui,oui,oui. Ai. Brigitte, bela marvada. Ammite, devoradora de homens. Despedaça coraçõesvadim que despedaçava corações em todo o mundo.  Bastava ver uma foto sua, um filme onde as linhas ondulantes se mostrassem mais sinuosas qual um rio preguiçoso ondeando no vale sem fim. Vence a fera, a fera vence. O verbo cortado na garganta. A bela encanta. O encanto do caminho da serpente que se não desencanta, sob  olhar e giros do dervixe. Olhos grudados na sua boca entreaberta para o mundo. Cunhã maira, feiticeira d´além mar. Vaporosa Brígida. Dá teu Grito no Silêncio. Perdido n´amplidão do espaço, ninguém te ouvirá. Retorna aos anos de glória e glamour. Não sejas  mensageira do mal, arauto da discórdia como Isfet. Quando morreres e te apresentares no Salão de Julgamento perante os Deuses, teu coração pesará mais que a pena de Maat que te enviará para seres devorada por Ammit, a devoradora de humanos. Ele não sabia que um dia ela iria lançar seus dardos contra imigrantes, negros, mestiços e mulçumanos. Que seu furor pela defesa dos animais era um disfarce para esconder sua xenofobia e seu desprezo pelo ser humano. Que um dia ela iria se preocupar mais pela sorte dos cachorros no Egito do que pela morte de pessoas na Palestina. Et Dieu...créa la femme. E criou Deus a mulher?   Defeca-te destas parvoíces  Madame Brigitte Anne-Marie Bardot. Que desprezo. Camille Javal, tu não irás à guerra, BB. Lembrou-se de seu berimbau, seu gunga.  Gunga Din não. Seu gunga, o de biriba, não o traírindiano   Kipling.  Como o amava, e as cantigas ensinadas por seu mestre Canjiquinha, invencível no toque do berimbau. D´outro mestre, Waldemar.  calça branca, quadriculada camisa, no pescoço, vermelenço, en su cabeza, baêta. Esse Gunga é meu, eu não dou a ninguém. Esse gunga é meu, foi meu Deus que me deu. Esse gunga é meu. Panha laranja no chão tico-tico. Adeus, adeus, boa viagem, eu vou m´bora, boa viagem. Seu berimbau, seu toque. Angola rastejando como cobra. São Bento Grande veloz, Bento Pequeno manhoso, Angolinha astucioso, Samango, olha a polícia rombora. Seu Berimbau, seu abre-te Sésamo. Se ele estivesse ali. Delindo esperanças, o delegado interroga. O encanto da serpente. Grito, grito, munch gritos, não na ponte, na polícia, mais terror. Como pode? Um estudante de direito, ladrão, como pode? As lágrimas, não, de crocodilo, veramente lhe corriam. Não fora educado para o mundo, o mundo de aparências, mas d´essências. É muito mal, pois não aprendeu a regra do jogo, não ganhou régua e compasso. E sofre quando outros riem e gozam, gozam e riem. Nem imaginaria que um dia iria sofrer por uma formação ferrenhamente cristã, em que se cultivara o amor, o respeito e a honestidade. Nunca imaginara  ser atacado um dia, justamente por pessoas desonestas e violentas, que confundem humanidade, retidão de espírito com babaquice e covardia. Não era um cobarde. Ê Mundacho Torto, profundo baixo, gigante, frei capucho Teodoro, ouço-te de Bach Toccata e Fuga, na Piedade em Ré Menor. Me ensina cantar o Réquiem, de preferência Mozart. Me ensina contar o tempo, somar, multiplicar, solfejar, multiplicar. Ali estava  o princípio. Aqui  seu primeiro pleito.  Puxa da pena  o perdão. Deliu-se o furor policial. Vence a emoção, cala a razão. Vencer, venceu,  mas será sempre assim? Prejudicada, quase, a prova de Geografia do professor Pierre George, no Boulevard Arago. Ah, meu caro mestre, conhecedor do mundo inteiro, se tu soubesses  o quanto é duro nascer no Nordeste Brasileiro. Inventam os gregos a tragédia que o nordeste vive agora, com seus beatos e devotos, cangaceiros e jagunços, cantadores e pade Cíço, secas, fugas e paixões. Sant´Esquilo. São Sófocles. Sant´Eurípedes.  Orai por nós que recorremos a vós. Não. Sê firme. E viverás. Mesmo que nem tenhas tido teu primeiro amor  de juventude. Mesmo que te tenhas recolhido ante a estonteante Brigitte. Mesmo que não tenhas  tido em teus braços a bela flor d´Oriente. Mesmo que te tenhas calado ante a petite allemande. E os olhos de Chantal? Seu sorriso em noite extrema, na dança do carnaval. Tu a tivestes, afinal? Mesmo que não. Mesmo que. Ai, marvada sorte fortuna, por que tu não me escolhes Ganeça, filho de Pavarti, deusa, de Shiva esposa?  Por que tu me deixas nos braços do malvado Elegbará Set Exu? Por   que   tu não me levas, Onipotente Zeus, pra no Olimpo servir, tal  como tu levastes o troiano Ganimedes? Não. Sê firme. E viverás.
(Conto publicado  na Antologia Scortecci de Poesia, Contos e Crônicas, 2009, Scortecci Editora, S. Paulo)
Também publicado nos seguintes blogues:
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Do livro Noite em Paris, breve nas livrarias.

Literarte - Literatura e Arte

Literatura e arte deve ser o nosso caminho. Espero poder, com este blogue, proporcionar momentos de reflexão sobre a literatura e a arte em geral.