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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A MIRAGEM

A MIRAGEM







                                                                                                                                      

            Eu tinha cerca  de 12 anos. Na roça, onde morava, as moças  que eu via eram poucas, e somente quando ia à feira de Capela,  arraial à uma légua de nossa casa. 
            Eu me enfeitava todo no dia de sábado, dia de feira em Capela do Alto Alegre. Meu chapéu novo de couro, uma casaca e as alpercatas de cromo. Jogava um pouco de cheiro no corpo, roubado da mamãe. Olhos dançando, no caminho. Buscam Mariá, vindo do Tabuleiro. Ou do Bispador. Ouvia a cantiga de roda das noites de lua cheia. A rosa vermelha é meu bem-querer, a rosa vermelha e branca eu hei de amar até morrer. Veria o passo alegre de Quesinha? A Mente voava pr´Aroeira, onde nasci e via Helena caminhando pra escola.
            Um sábado, após haver ajudado a descarregar os burros, fui amarrar os animais e pedi a meu pai para dar uma volta.
D’outro lado da praça havia uma aglomeração, a mor parte, garotos como eu, em torno de uma limusine. Corri para lá. Um carro. Era nosso espetáculo.
            Dentro da limusine estava sentada, com muita graça, a nos olhar admirada, uma linda moça. Seus grandes olhos pareciam mato em tempo de chuva. Nossos olhos, capim queimado do sol, iam e vinham de uma ponta a outra do carro e se quedavam na moça,  cujos  cabelos eram espigas de milho nas noites de São João. O vento jogava-os de um lado para o outro e seus dedos tentando  acomodá-los, faziam lembrar a cobra -cipó. Ela toda nos recordava a graça de um pé de licuri. Pela primeira vez olhei mais para u’a mulher do que para um automóvel. Me vieram à memória todas as imagens das santas trazidas por aqueles frades barbudos numa missão havida meses atrás.
            - Parece a santa do padre da missão. Bem que pode ser a mesma. Quando crescer quero me casar com ela, disse.
Acharam ser pecado. Uma santa, não podia se casar.. Caçoaram de mim. Ter vergonha tive. Corri dali. Nos meus olhos, sua imagem. Me seguia..
            À noite, em casa, após ter ouvido meu pai contar o sucedido na feira - suas vendas, e o dinheiro apurado - fui deitar-me. Logo adormeci. A imagem da moça me veio em sonhos e me chamava pelo nome: “Dá, estou aqui”. Era uma voz macia como a lã dos cordeirinhos. Os borreguinhos da Boa Sorte, a fazenda do tio Pedro, Pedro da Boa Sorte. Parecia o arrulhar da juriti de papai Nézinho. Juriti lá na gaiola quer sair. Guardiã que é guardada, pia mansa apaixonada.
            O sol crestava mato e secava tanques. A miragem permanecia, fosse lua fosse sol.
            Quando o sol caminhava para o lado das serras eu sempre me entristecia  pois me lembrava dela. Era a hora de apartar o gado e ouvir o aboio de seu Ricardo levando-os para curral. Cuidava da criação, cabras e ovelhas, eu com meus irmãos. E quando as nambus começavam a cantar à boquinha da noite, íamos reunir os animais.
            Nessa tarde, tinha-se perdido uma ovelha amojada. Buscara-a entre mato, gravatá e cassutinga. Nem berro de mãe parida, nem balido de borrego ouvia-se pela catinga. Perdido em qualquer galho, estaria seu chocalho ou caído seu badalo. Cansado de procurar, sentei na cerca. Cerca de travesseiro, boa pr´atravessar, boa para sentar e até para deitar. O gado vinha tangido para o curral pelo vaqueiro Ricardo. Vortaçucena. Tu é doida, vaca danenta. Azuzinha, ei, ei, ei. Iáaa. Láá. Saí daí, queli, cachorro embirrento.
            Longe, na estrada, o tilintar da mula-rainha da tropa do primo Zezinho. Trotava com seus burros. Chegar é preciso, antes de escurecer. Na estrada pra Capela, não é bom passar no escuro no tanque de Rosalina. Mal-assombrado, diziam, com alma de Joaquim Machado.
            Siriema cantou no longe. Um bando de papagaios passou gritando, cou, cou, cou. Iam para os ocos dos paus, onde fazem seus ninhos. A zabelê cantou o canto que lhe deu Tupã e me lembrei da cantiga de roda. Minha  sabiá, minha Zabelê, toda meia-noite,  eu sonho com você. Um gavião passou perseguindo uma fogo-pagô. Ah, um bem-te-vi por aqui. Pitanguassu, pitangussu, ond´tá tu, ond´tá tu. Atirei meu chapéu-de-couro. O anajé pega-pinto perdeu o pino. Fogo-pagô voou, voou, se abrigar  longe na quixabeira. Fiquei contente de salvar a rolinha, embora tenha  matado muitas, de badogue, e comido, assadas num espeto.
            Um jumento, mato a dentro, zurrou alardeando potência e resignação. Ali podia estar a ovelha desgarrada. Talvez estivesse parida e aquele gavião fosse comer o borrego. Ou talvez um  outro carcará qualquer, já o tivesse feito antes dele Não basta a sede por que passam já ao nascer, correm também o risco de serem comidos por aqueles pássaro, de bicos sanguinários. Um carcará só devia de comer milho e frutas como os outros pássaros. Porque só ele deveria comer carne? Será que ele era um passarinho de mentira? Só tinha pena para enganar os outros?
            Do tanque vinha a voz de minha mãe. Na cabeça uma cabaça, água de beber, camará. De licuri, cacho na mão. Debaixo da pedra licuri. Licuri coco miúdo. Dizia ela uma chula. Daquelas que se cantava na raspa da mandioca na casa de farinha.
            Xô, Xuá
           Cada macaco
           No seu galho...
          Gostava de ouvir mamãe cantar. Mais um gemido. E não um canto. Sentia saudades. Do nada. Não traziam alegria os cantos lá do sertão. Se arrastavam com dolência e angústia.  Seca secando o gado, cobras mordendo gente, assombrações correndo a noite, caipora perdendo o povo,  lobisomem virando homem,  mula do padre trotando, cangaceiros perambulando e jagunços atirando, festas dos Santos Reis, São João do Carneirinho,  bois, batuques e batas, batas de milho e feijão, cantigas de roda na noite, nas noites de lua cheia, chula, xaxado e baião tudo isto é o sertão, triste, terrível torrão.
          Uma voz, longe na malhada. A moça do carro de Capela. Em pé, de pernas altas,  parecia eu, um anão. Trazia na mão uma varinha. Igual a nossa de tanger gado.
          - Eu estou aqui, disse.
          Desci da cerca. Com medo, surpreso e assombrado. Sua voz desta vez soara como o balido de um cordeiro. Anho de Deus. Hesitei um pouco no pé da sebe. Seus  olhos se confundiam com o capinzal.
          - Vem, eu sou tua amiga, me disse.
          Tomei coragem e corri pra ela, tropeçando em pedras, tocos e arbustos. Mais corria, mais distante ficava ela de mim. Seus cabelos se misturavam com as nuvens doiradas pelo sol crepuscular. Suas vestes eram brancas. Pendiam-lhes listas amarelas. Não pareciam de tecido. Talvez algum metal a refletir os últimos raios do sol poente. Derramou-se uma luz por toda  malhada. Espargia-se uma intensa fragrância de jasmim silvestre, a flor que eu mais gostava e porque chovia suas flores embranqueciam o mato, iãsemin que embriaga as noites do sertão. Ela ia se afastando como se estivesse alguém puxando-a para cima e para trás.  Eu corria. Não me pesava o corpo. Seus olhos, o meu guia. Sorriam para mim. U’a música, que até então pensara ser apenas um ruído, aumentou e escutei sons nunca dantes ouvistos. Vozes se mesclavam numa orquestração indecifrável. Surgiam luzes e pariam cores e sons, circundando meu corpo, meus ouvidos. Não diziam chulas nem batuques. Nem tambores, nem pandeiros. Era um cantar de palavras. Indecifráveis. U’a música disforme das toadas do sertão. As vozes se misturavam e me vinham como um chamado. Eram sons como faziam os órgãos e os violinos. Às vezes parecia ouvir o doce toque do boré. Fiquei com medo e quis parar. Já não conseguia, entretanto, estancar, por mor de uma força que sentia me conduzir em direção àquela moça. Ela mansa e meigamente se afastava.
          - Não tenhas medo - Sua voz pairava sobre tudo. Era um canto e seu canto o mais belo. Já não mais sabia onde estava. Meus pés começaram a desprender-se do chão pedregoso. Gritei.
          - Papai, mamãe, estão me roubando.
          Grito perdido no espaço de sons, cores e luzes, vindos  como a me embalar.  Ela me sorria de  seus olhos verdes e me enviava beijos. Tanto espanto, não percebi um carro se aproximando por dentre as nuvens. O mesmo carro da feira em Capela. Azul e não preto como antes. Sem fumo, nem bulha, deslizava por entre as nuvens, puxado por dois cavalos brancos. Ela convidou-me a entrar no carro e tive ainda maior medo. Gritava para que me deixasse ir embora. Não queria ir com ela. Gostava muito dela, mas tinha medo. Não sabia para onde estava me levando.
          - Vou te levar para um lugar muito lindo, onde não há secas, nem fome, nem assombrações,  nem jagunços.  Disse - onde tudo é paz, música, festa e cores.
          - É para o céu? - perguntei - eu ainda não morri. Me deixe ficar, não quero ir. Eu estou com medo.
          -  Para um lugar melhor que o céu, porque não é preciso morrer para se ir para lá. Vês? eu não estou morta.
          Me fez tocar seu braço. Era cálido. A boca do forno da casa de farinha. E suave como as plumas dos pintainhos. Eu tinha medo e saudade dos de lá de casa. Com certeza já tinham sentido a minha falta e estavam me procurando. Além disso, seria muita ruindade minha ir-me embora para um lugar tão bom e deixá-los sós na roça passando toda espécie de necessidade, como quando passamos um ano bebendo água salobra da cacimba, porque não chovia, ou quando tinha de pisar o milho, fazer cuscuz e comer com feijão.
           - Eu quero voltar para minha casa - dizia desesperado, embora já tivesse compreendido que a moça não me queria fazer mal algum. Quase como um desabafo, quase com um gesto de impaciência sua voz, seu corpo disse:
          - Olha bem, senti naquele dia que gostavas de mim e vim te buscar. Vou te deixar, porém, porque não estás preparado para viver entre minha gente, mas virei um dia te buscar. Prepara-te então. Ama-me, que esta é a melhor maneira de te preparar para mim.
Senti meu corpo. Desprendia-se daquele carro. Imagem, som, luzes e cores  iam-se afastando. Seu sorriso ia tomando conta de mim. Um sentimento de perda ia-se apoderando de mim. Eu ia descendo e me afastando dela. Sua voz dizia - adeus, adeus, até a volta - como uma canção de ninar. Meus pés tocaram o chão. Quedo, mudo e surdo fiquei. Tudo desaparecera. Era tudo lusco-fusco. Eu ouvi o balido de um cordeirinho. E vi, em frente a mim, a ovelha que tanto procurara e o borreguinho buscando ávido o peito da mãe.
          Eu toquei a ovelha e seu filhinho para o curral. A lua alumiava a boca da noite. Uma acauã gemeu seu canto e eu apressei o passo.




Continuação no livro Noite em Paris, breve nas livrarias.