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terça-feira, 30 de outubro de 2012

QUAL FOI TEU FIM?


          





Dezassete de dezembro de 2006, Ita, vixi, quarenta e cinco anos mais sofridos que vividos. Queria matar  um deputado. Peixeirada sem mal nenhum.  Quem tem fome não tem força. Nem sabia  se queria mesmo matá-lo ou chamar atenção. Ambições sufocadas por pensão que não pensionam. Flagrada, indiciada, encarcerada. Olham-me como uma besta-fera. Confessar o que? Louca, débil mental. Desmoralizam a  revolta:  Ato insano. Um presente em Brasilia: Reajuste de noventa e um por cento, aos deputados, beira os índices de pobreza. Democracia,  invenção de quem  está no poder. Fingir que o povo  governa; Diverge e serás um louco, ridicularizado. Destino. Cadeia, manicômio, e morte. Médico corruptos  atestam tua loucura.  Assim foi na União Soviética, é nos Estados Unidos,  no mundo. Grossas verbas para a imprensa que é deles e o cara é um maluco, um palhaço. Mundo, poucos  mandam,  muitos  obedecem. Com pão e circo, mais circo do que pão, te governam. Indústria da diversão. Um anestésico. Tu te esqueces de ti. A democracia do mundo, de mentira, só os dominados obedecem, cumprem leis, eles, fazedores deleis, não precisam cumpri-las. A liberdade cantada e decantada por códigos e constituições não é para mim, nem para ti, a nós, o eito, bestas de carga. Ontem, hoje e amanhã, se ficarmos parados, e, a lei para obedecer. Aqui é só penar, se não me matarem antes, como dizem fizeram com o genro e também da filha. Nunca se sabe a verdade. Como não ter medo? As detentas não me olham com bons olhos. Maluca, assassina do menino. Nem matei já sou assassina. Não, arrepender  é negar tudo. O que é dele tá guardado. O velho pode botar as barbas de molho. Dirão um dia. Voz do negro, voz do pobre,  eles têem nojo, não se calou. “Revoltada com supersalários, mulher esfaqueia ACM Neto na rua”  Num jornal. É um inicio. Heroína, fez o que não temos coragem,  Faca sem chaira, sem queijo. Quicé. Mas teve efeito. Liminar de Lewandowski.  Eu. Imploro minha padroeira. Adianta? Eu imploro. Ó Gloriosa e Poderosa Rita de Cássia, santa das causas impossíveis, advogada dos desesperados, auxiliadora da última hora, refúgio da dor e desesperança, em vosso poder junto a Jesus do Sagrado Coração  tenho confiança, a vós recorro contra as forças do destino, não me abandones nesta hora, me livra da opressão dos grandes. Esperar. Interrogatórios. Frio, aqui. Estes gritos me enlouquecem. Que luz é esta na minha cara? E estes ruídos, de onde veem estes ruídos? Querem-me cega e surda.  Sede, quero beber.  Pão e água. Lá fora tinha circo. Que não deem telefones, nem pau de arara, basta o corredor polonês. Tu inda vai matar o menino? Gazela. Vagabunda, puta, negra sem vergonha, Macaca imunda. E pensar que muitos deles eram negros e negras.  Batiam como os capitães do mato. Se não fosse o traidor, a vitória não seria tão fácil. Deputados, tudo têem. Eu, nem o FGTS. Não tenho medo. Vão dizer que me suicidei. Juca suicidou-se?  E eu, quem vai me defender?  Só o futuro. O tempo é como água, lava tudo. Você acredita mesmo que me suicidei? Oh!, meu amigo, só você mesmo pra me visitar. Coragem, correndo perigo. Te devo esta visita.  É, também, parte do que sou a ti agradeço;  Nunca antes tinha pensado. Escravidão. Algo distante e uma boa princesa, acabando, de uma canetada. Ingenuidade, você disse. Não aguentavam mais sustentar a negraiada. Casa, roupa e comida. Melhor pagar,  a lei da mais valia. Paguemos nós o dia,  e que se dane casa,  roupa e comida. Treze de maio.  Vai vender teu dia,  sem teto, sem terra, sem roupa, sem comida. Mudou a forma, os escravos continuam.  Ah, meu amigo, não fosses tu, talvez não estivesse aqui. Não, não me lamento.  Ipiau, na festa  de São Roque. Você se lembra? Te vi, te olhei, quase chamando. Você veio,  estava indo embora. Sem roupas,  estavam sujas. Uma camisa de meu irmão e ficastes. Meu primeiro beijo,  quase roubado, fui eu que o roubei, ladra. Japumirim, no oitão de casa, amar,  amor. O meu primeiro. Sumistes, depois, tu não sabes quanto sofri.  Fui a Gandu te procurar, lembra?  Você prometia ir me ver. Sabia de ti, diziam, esteve aqui. Não veio me ver. A audiência terminou tarde, tinha de voltar. O Rio de Contas, nem te conto, meu choro ouvia, neste dia. Mais  Ligavas, mais sofria.  Eterno é o tempo. Olhos abertos para o mundo, te agradeço. Tupi das arábias, escrava na pilhagem do cristão. Banzo. No mar não ser jogada,  sorte minha,  por não comer, querer morrer, açoitada. Por o  patrão entrar em mim,  não reclamar, não abortar, nem matar  filho gerado, futuro escravo, não morrer da própria mão, rícino comida, água com peçonha  e roupas virulentas. Faziam os senhores. Escravos. Piedoso cristão, adoradores de paus cruzados. Trago-a em mim.  Amiga, perdão, amor, provo agora.  Mais que amizade, mais que amor. Amigos, onde estão? Assim eu sou. Não me leves muito a sério, nem mesmo  eu me levo.  Eterno é agora. Não foi ontem,  nem amanhã. Tempo não se conta. É. Ele é. Eu, sei e não te recrimino. Até tu falavas.  Elas, mais do que tu, te procuravam. Ione, você amou, quase morreu. Se te encontra em casa, que a levasse a  Itamari. Quem a levou encontrou com ela a morte. Torturados ele e ela.   Dinheiro sexo e poder. A trindade, sempre juntos. Papas renunciam, carnaval, vale a carne, dinheiro, carne, poder. Se ajustou na cadeira, plástica, incômoda, arranhada, carrara de pobre. Eu também, dura cadeira, duro cheiro. Alcatifas do vaticano, alfombras principescas,  baldaquinos reais. Cheiro. Sexo, velhice e mofo, urina, bosta e suor. Cupins talham  madeira.  Ventilador no teto,   mais barulho que vento. Moscas, vão nos devorar. Já, já tocarão a sineta, inda bem, ir-me, deixando-a sozinha,  retornar à cela. Olhar lascivo de uma detenta.  Ela diz estar com medo. Todas a cobiçam. Frequentes as brigas, qualquer motivo, sexo na dianteira.  Uma espanhola me pede cigarro. Não fumo. Está por tráfico, pede pra ver seu processo na justiça. Mula, usada, precisava viver. Trabalho de muitos, vida fácil de alguns. Inda bem, pena de morte aqui não tem. Coitado do Marco Archer, executado na Indonésia. Boi de piranha, como se diz aqui.

Ita sorri pra mim. Sorrio também pra ela. O mesmo sorriso de quando a vi, no Trio Elétrico Saborosa. Uma garrafa da famosa cachaça, tu te lembras? Sim. Saborosa Ita,  Sabrosa Ita,  Sabrita não era assim que  te chamavam? Sim, Marita, não era assim que te chamavam? Cúmplices. Todo cuidado é pouco.



Continuação no livro Noite em Paris, breve nas livrarias.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012


          Ele tinha três filhos, mas um, o melhor de cabeça e de tudo, teve a desventura de morrer quando estava começando a fazer sua vida. Era um rapaz trabalhador, sereno e amigo.
             Mas, quem disse que a felicidade fica onde chega? Não, ela voa rápido e veloz como um beija-flor que nem chega a pousar na flor e dela retirar o alimento que necessita para suas evoluções de miríadas de batimento d´asas.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

CRIME SEM CASTIGO

          Salvador, 20 de janeiro de 2012
          Caro Amigo,
          Há muito tempo que tenho vontade de te falar algumas coisas que estão presas  dentro de mim, mas confesso que nunca tive coragem, principalmente porque você me dissera, uma  certa feita, que a família da vítima de um assassinato  poderia ajuizar uma ação de indenização  para ser indenizada pela morte da pessoa. Com certeza, pagar pela morte de alguém é mais penoso do que ser preso, porque se sabe que ninguém cumpre o total da pena e mais cedo ou mais tarde, se consegue a liberdade.
         Você não sabe o quanto tenho sofrido em manter este segredo dentro de mim, sem que possa partilhar nem com um amigo. Foram noites e noites sem dormir. Sempre confiei em você, mas você teve uma paquera com ela. Tinha medo, e além disto, você foi sumindo e, claro,  tudo diminui com a distancia.  Tinha medo de se descobrir tudo, nunca se sabe as voltas que o mundo dá. 
          Li que o crime prescreveu. Este dia era esperado por nós, na mais absoluta angustia. Esta noite, como em inúmeras outras,  estive pensando. O crime já prescreveu, por que não te contar tudo? Ninguém vai pagar mais por coisa alguma. Por isto resolvi te contar o que aconteceu naquela noite. Você me havia dito que tinha vontade de escrever sobre o assunto, mas você mesmo tinha medo. Vou te contar tudo, não sei escrever como você, cabe-lhe fazer de meus escritos o que  bem entender.  Deixar do jeito que está, fazer um romance, um conto policial, um estudo de criminologia, de psicologia, enfim o que quiser. Faça de conta que tudo foi escrito por você, eu não quero nem saber de autoria e muito menos de direitos autorais. Para mim basta. Claro que inda tenho medo, mas seja lá o que Deus quiser.
       Rolou muita coisa antes que se jogasse o corpo dela nas dunas da Abaeté. Hoje não me lembro de certos detalhes, mas vou fazer o possível para me recordar, com a ajuda de alguns recortes de jornais que guardei comigo a sete chaves, sem que ninguém soubesse,  e, a despeito das mil mudanças que fiz, ainda as tenho comigo.
       Naquela noite, estava como que embriagado, porque não me embriago nunca, mas nem sei mesmo, se não estava completamente bêbado, para ter consentido a prática de cenas que hoje me deixam perplexo e enojado. Posso agora refletir o que não poderia ter também acontecido com você, quando, ainda não familiarizado com as maldades do homem, na noite em Paris, se juntava a  jovens de todas as partes do mundo,  de idéias as mais estapafúrdias e formação totalmente diferente, e até mesmo contrária da sua, como você me dizia, nos longos bate-papos que tínhamos, e se entregavam, naquelas noites, ao prazer próprio da juventude, sem medo algum, porque o medo não é sentimento que faça morada no jovem, ou mesmo o frequente amiúde.
          Você poderia ter passado pelo que passei, e o que é pior, em país estrangeiro, onde fatalmente a aplicação da lei é mais rigorosa do que aqui. Porque, juro, nada fiz para que o processo prescrevesse, foi  ineficiência e inércia mesmo. Autoridades e funcionários, preocupados unicamente com o contra-cheque e as "custas por fora",  o CPF, para complementar a féria do mês.
          Eu, gastei o mínimo, muito embora outros tenham gastado quantia até vultosa para morrer o processo, fazer chegar a este fim. Em outros países todos nós teríamos um mínimo de remorso certamente alguém de nós, arrependido, já teria se apresentado à justiça e confessasse. Fui eu que matei aquela mulher. Mas nós somos cara de pau. O brasileiro, morre dizendo a mentira. É incapaz de reconhecer o próprio erro. Gostaria de saber porque somos assim. Admira-me quando vejo na televisão pessoas em outros países acusadas de qualquer crime dizerem publicamente "eu sou culpado". Uns até se matam perante as câmaras. Aqui, quanto mais errados estamos, mais obstinados ficamos. Claro, juntando-se a isto a morosidade da justiça o que resta é a impunidade. Não estou aqui dizendo que a polícia ou a justiça deva arrancar uma confissão, custe o que custar. Não, há o direito de ficar em silêncio, o direito de não produzir provas contra sí. Falo de nosso carácter pusilânime, nossa falta de coragem e de humildade em  reconhecer nossos erros. Como você mesmo disse, naquela semana, havia marcado um encontro com ela para a semana próxima e que foi colhido de surpresa quando soube pela televisão que ela fora encontrada morta. Ela me falara mesmo que havia conhecido um cara legal e que haviam feito projetos juntos. Ela como jornalista daria publicidade a seus trabalhos na área artística e jurídica, só não imaginava que esta pessoa de quem falava era você.          
  



Continuação no livro Noite em Paris, breve nas livrarias.