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terça-feira, 22 de julho de 2014

CENA ENTRE DOIS QUE SE AMAM


Peça em um ato publicado em 24.10.2005 no sítio: http://www.supergoa.com/pt/forum/read.asp?c_post=5084


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Mensagem Cena Entre Dois Que Se Amam - Comentarios?

AutorElcarmo     Data: 24/10/2005     Mensagem lida 200 vezes
Cena entre dois que se amam
;
 EL CARMO


Dá encontra-se no quarto que toma ligeiramente o aspecto de um lugar sagrado. Algo como uma cela de seminário ou convento. Dá sozinho. Nervoso. Escreve folhas e folhas de papel
amassando-as logo em seguida. Enraivecido, pára. Fuma. Abre ;um livro. Fecha-o faz exercícios. Olha o relógio. Põe um disco na vitrola. Ensaia um movimento de dança. Faz-se de regente. Deita-se ouvindo a sinfonia. Nevena entra. Agita-se
;
DÁ – por que tão tarde? Não sabe que estou aflito?

NEVENA – não vejo porque tanta aflição. Você fica dias a fio
>sem nada fazer. Dorme mais que o devido. O que você é mesmo,
>é um grande preguiçoso.
>
>DÁ – (furioso) – você não pode dizer isto de mim.Eu dou duro.
>Eu sou responsável.
>
>NEVENA – preguiçoso e desorganizado.
>
>DÁ – chega. Se você veio aqui para me encher, então se pique.
>Saia já. Vá atrás de seus machos.
>
>NEVENA – o que? Você me diz isto? Vocês brasileiros são todos
>iguais. Uns machistas. Tudo na teoria é muito bonito, na
>prática são uns canalhas. Presunçosos.
>
>DÁ – E vocês europeus? Uns degenerados. Cartesianos imbecis.
>Uma civilização podre.
>
>NEVENA – Uma civilização que vocês procuram imitar. Vivem
>sonhando com a Europa, como se de lá tivessem sido
>desterrados. É o complexo de bastardia. Todo brasileiro é
>complexado, porque não sabe de onde veio. São uns filhos de
>ninguém. Um povo sem noção de suas origens. Você sabe quem
>foi o seu bisavô, seu trisavô, seu tetravô? Não sabe. É um
>bastardo. Não sabe sua origem. Por isto vocês estão sempre
>fora da realidade. Não conseguem enxergar os problemas da
>nação. São uns sonhadores inconseqüentes. Você mesmo quando
>estava na Europa vivia pensando no Brasil. Hoje está no
>Brasil e sonha com a Europa. É um desajustado. Não vê o que
>esta em redor de si. Passa, passa o tempo e nada faz. É um
>desastre total. O autor das obras incompletas. Nunca termina
>uma obra. “Estou escrevendo um romance. Vai dar o que
>falar”. “Devo terminar minha peça este ano”. “O diretor tal,
>está interessado em montá-la”. “Estou preparando um livro de
>contos para ser lançado na Finlândia. Marita está querendo
>edita-lo".Porra Põe a cabeça no lugar. Te concentra e faz uma
>coisa só, assim você não vai para lugar nenhum.
>
>DÁ – se você admite que sou um fracasso, porque fica comigo?
>Deixe-me com o meu fracasso. Eu não preciso de sua ajuda.
>
>NEVENA – Um fracassado sim. Seus personagens, no fundo uns
>fracassados também. O sucesso deles é a imagem do seu
>fracasso.
>
>DÁ – Pois eu vou provar a você e ao mundo que eu tenho
>talento. Provarei. Nem que tenha que tocar fogo no mundo. Nem
>que tenha de beijar o Papa. Nem que tenha de matar o Papa.
>
>NEVENA – Nero não foi mais insensato!
>
>DÁ – Aí é que você se engana, querida. Nero foi um gênio. Ele
>morreu há séculos e ainda se fala nele. Você esta viva e nem
>se sabe que você existe.
>
>NEVENA – Eu não sou megalomaníaca.
>
>DÁ – Porque é medíocre. Eu, não. Aspiro fama e dinheiro.
>Serei mais famoso que o Cristo, que Maomé, mais que a coca-
>cola.
>
>NEVENA – Tão insensato é, que mistura dois grandes homens com
>um produto da sociedade de consumo que você tanto diz
>detestar.
>
>DÁ – Sim. Detesto, sim. Por ser um símbolo da massificação,
>mas não posso negar que a coca-cola é mais conhecida do que
>estes dois grandes homens. Cristo, Buda, Maomé os três
>maiores homens que a humanidade produziu. Eles, entretanto
>não passam de fenômenos da comunicação. A coca-cola é um
>fenômeno maior que eles três. Eu serei maior que todos.
>
>NEVENA – Querer não é poder, quando não o fazer. E você nada
>faz para isto acontecer. Do jeito que você vai, terminará
>amarrado num hospício, e com todo prazer irei levar cigarros
>para você.
>
>DÁ – Se estou indo a loucura, você é quem está me levando. E
>isto eu não permitirei. Não tenho nenhum sentimento por quem
>se põe em meu caminho. Eu aniquilarei qualquer um. Mesmo que
>seja meu pai, minha mãe, meu filho.
>
>NEVENA – Você é um monstro de egoísmo. Só pensa em si
>próprio. Não gosta de ninguém. Nem de você mesmo.
>
>DÁ – Engano seu, beleza. Aí é que esta a sua incapacidade de
>me entender. Mediocridade pura. Não pode entender um gênio.
>Não pode ver a humanidade que há em mim.
>
>NEVENA - Tenho pena de você. Vai terminar os dias sozinho,
>como um cão danado, pois cada dia se torna mais
>insuportável. Não há mulher por mais abnegada que seja que
>tolere suas manias. Não dá para entender. Me chama de
>medíocre! Já pensou nas mulheres com quem você perde tempo?
>Não se envergonha disto?
>
>DÁ – A mulher é um acidente na vida de um homem. Eu não
>quero nenhuma, porque não quero ser ninguém. Além do mais,
>não tenho de prestar contas a você, nem a ninguém. Nem mesmo
>a Deus, se é que ele existe. E bem que eu gostaria que ele
>existisse e que eu o encontrasse para cuspir na cara dele.
>Ditador cruel que vive a atormentar os homens com suas leis.
>Eu elejo Lúcifer como meu protetor. Por ter sido o primeiro
>ser a dar o grito de independência e ter construído seu
>próprio mundo.
>
> NEVENA – Você está fora de si e não dar pra
>conversar. Atinge a tudo e a todos, e não estou pronta a
>suportar sua irracionalidade. Qualquer dia deste te largo e
>pronto. Tudo acabado.
>
>Dá – Qualquer dia não. Hoje e já. Não quero mais te ver na
>minha frente. São todas iguais, brasileiras, européias, o
>diabo. As mulheres realmente só se deve dar duas coisas: o
>presente do P. Pica e porrada.
>
>DÁ – pega de algo e atiça contra ela – pelo amor de Deus saia
>da minha frente. Eu não quero ser o assassino da mulher que
>eu amo.
>
>NEVENA – que amor é este?
>
>DÁ – cala a boca. Nem mais uma palavra, se não eu te parto a
>cara.
>
>Cala a boca? Ditador, execrável tirano. Você renega tudo que
>aprendeu. Tenho pena de teu fim.
>
>DÁ – quem é você para ter pena de mim? Puta descarada.
>Investe contra ela. Bate-lhe. Ela se agarra a ele. Chora
>apanhando. Lutam. Ele a derruba. Tenta sufocá-la com um
>travesseiro. Ela esta por sufoca-se. Consegue com esforço
>tirar o travesseiro de seu rosto. Grita:
>
>NEVENA – Dá, nosso filho. Você me prometeu um filho, nosso
>filho.
>
>DÁ levanta-se de cima dela, começa a chorar desesperado.
>
>DÁ – você me enfureceu. Não devia ter me provocado. Eu quase
>me torno um assassino da mãe de meu filho. Nunca pensei um
>dia bater em uma mulher. Você é a única culpada.
>
>NEVENA – vou-me embora, não fico mais aqui – tenta levantar-
>se. Não consegue. Cai. Dá corre para ampara-la. Toma-a nos
>braços. Leva para a cama. Corre a procura de remédio. Pega um
>copo com água. Dá-lhe. Ela se recusa.
>
>NEVENA – Não, não, eu quero morrer. De nada mais adianta
>viver. Tudo acabado.
>
>DÁ – ameaçador e solícito – quer morrer? Beba. Beba logo.
>Quer me complicar? Beba. É para o nosso bem. Por nosso filho.
>É preciso viver. Por ele. Por nós. Beba amor.
>
>NEVENA bebe o remédio entre soluços. Cai na cama. Ele também,
>ao lado. Choram ambos. A luz vai se apagando e se torna
>escuro.
> EL CARMO
>

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Continuação no livro Noite em Paris, breve nas livrarias.

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